domingo, 25 de setembro de 2022

ÁGUA: DIREITO HUMANO AMEÇADO (2)

Ainda que estejam no rol dos Direitos Humanos desde 2010, conforme resolução da ONU, o acesso à água limpa e os serviços de saneamento básico ainda são desconhecidos por milhões de pessoas em todo mundo, inclusive por boa parte dos brasileiros. Números do portal do SNIS batem com os do estudo do Instituto Trata Brasil e revelam que cerca de 35 milhões de brasileiros ainda vivem sem água tratada e 100 milhões não são atendidos pela coleta de esgoto. 

Sancionado em 2020 pela Lei 14.026, o Novo Marco Legal do Saneamento não foi capaz de reverter este quadro. Os bilionários investimentos no setor não foram suficientes para atingir as metas da legislação. Os dados constam da 14ª edição do Ranking do Saneamento, publicado pelo Instituto Trata Brasil, que avaliou os 100 maiores municípios brasileiros. Cidades dos estados do Sul e Sudeste ocupam as primeiras posições do ranking, lideradas por Santos (SP). Entre os 20 piores estão municípios da região Norte, alguns do Nordeste e Rio de Janeiro.

O Plano Nacional do Saneamento Básico, de 2007, trouxe avanços, mas a Lei que o criou já sofreu inúmeras alterações. Houve redução nos investimentos na área e o Novo Marco do Saneamento facilitou a privatização dos serviços prestados pelo setor. Pela nova lei, empresas públicas não poderão ser contratadas diretamente, devendo disputar uma licitação com empresas privadas. Outra perda, foi o veto do Presidente da República ao artigo que permitia a extensão dos contratos atuais com as empresas públicas por mais 30 anos.



No Estado do Rio, o leilão de blocos da Cedae, empresa pública responsável pelos serviços de água e esgoto, foi levado adiante apesar de várias contestações e protestos. Em recente
seminário promovido pelo Instituto Onda Azul, o presidente da Cedae, Leonardo Soares, alegou que a empresa não foi privatizada, mas é parte de um “quebra-cabeças” destinado a viabilizar a prestação dos serviços de água e esgoto à população, prejudicados por falta de recursos. A Cedae faz a captação e o tratamento e as concessionárias se encarregam da distribuição. Segundo Soares, a empresa está recuperando os prejuízos dos anos anteriores e irá ampliar os serviços.

Por outro lado, durante a Semana do Meio Ambiente, realizada pelo Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, em junho, Ana Lucia Brito, professora do PROURB/UFRJ e coordenadora do Laboratório de Estudos de Águas Urbanas, destacou que o leilão de blocos da CEDAE foi uma contrapartida relativa a um empréstimo feito pelo governo estadual no exterior e foi realizado sem um debate público prévio. A pesquisadora ressaltou a falta de representatividade da população na Câmara Metropolitana, uma vez que muitos municípios do estado não têm assento no órgão e ficam sujeitos às decisões daqueles que lá têm participação.

 

A empresa vencedora da licitação, Águas do Rio, informa em seu site que é “concessionária da Aegea, líder no setor privado de saneamento básico no Brasil, é responsável pelo abastecimento de água e esgotamento sanitário em 27 municípios do Estado do Rio de Janeiro, incluindo 124 bairros da capital, atendendo 10 milhões de pessoas.” Informa ainda que, considerando o início da concessão, novembro de 2021, a companhia realizará “o maior investimento em saneamento básico no país, em torno de R$ 39 bilhões” e que a universalização dos serviços de água e esgoto será alcançada nos primeiros 12 anos. Contudo, quase um ano depois da concessão, são frequentes na mídia as reclamações dos usuários quanto à má qualidade dos serviços, tanto prestados pela Cedae quanto pela empresa Águas do Rio. Muitas vezes as contas chegam, mas a água não.

 

Suyá Quintslr, professora do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ), vê uma contradição entre as privatizações e o discurso que promete reduzir desigualdades. Em entrevista ao jornal Brasil de Fato, quando da aprovação pelo Senado do PL 4162 que criou o Marco do Saneamento, em julho de 2020, a pesquisadora destacou a “tendência amplamente documentada dos operadores privados optarem por investir nos serviços nas áreas nas quais eles são lucrativos, deixando as redes e infraestruturas das áreas habitadas pela população com reduzida capacidade de pagamento se degradarem". Na mesma ocasião, o engenheiro e coordenador do Observatório dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas), Marcos Montenegro, afirmou que o projeto “vem embalado por uma campanha que destaca as mazelas, mas não conseguiu fazer um diagnóstico das causas dos problemas que nós vivemos”

 

Num processo inverso às privatizações, nos últimos anos, mais de 300 cidades em diferentes países reestatizaram seus serviços de tratamento de água e esgoto, conforme aponta um estudo do Transnational Institute, um centro de pesquisas sediado na Holanda. Entre elas, Paris, Berlim, Turim, Buenos Aires e La Paz. Sobre essas remunicipalizações, Suya Quintslr destacou que elas ocorreram por diferentes motivos, mas sempre com foco no interesse público. No caso da criação da Eau de Paris, por exemplo, a intenção foi assegurar que os recursos recebidos seriam reinvestidos por uma empresa pública e não apropriados por uma empresa privada. Já na América Latina, as cidades de Cochabamba e Buenos Aires passaram por processos mais conturbados. Na cidade boliviana, a reestatização ocorreu após grande mobilização popular, a Guerra da Água, que contestava os aumentos de tarifa e as restrições impostas ao acesso até mesmo a fontes de água bruta. Os cidadãos da capital argentina também tiveram o fornecimento de água remunicipalizado após a concessionária privada descumprir cláusulas do contrato e promover aumentos de tarifa, ocasionando transtornos e prejuízos à população.

 

A pesquisadora chamou a atenção para o fato de que há diferentes maneiras de a inciativa privada participar do fornecimento de serviços essenciais, como o saneamento. Citou como exemplo a Sabesp, companhia estadual que lançou suas ações na bolsa, mas manteve o Governo do Estado de São Paulo como principal acionista e controlador. Lembrou também as PPPs, ou parcerias público-privadas, como a adotada em Recife. No caso da Cedae, o modelo adotado é a concessão dos serviços de água e esgotos para uma companhia privada e, neste tipo de contrato, ela considera que deveria haver uma regulação forte por parte do Estado.

Foto: https://blog.brkambiental.com.br/relacao-entre-saude-e-saneamento/

 

domingo, 4 de setembro de 2022

ÁGUA : DIREITO HUMANO AMEAÇADO (1)

 Desde 2010 o acesso à água limpa e segura e ao serviço de saneamento básico fazem parte dos Direitos Humanos, reconhecidos como tal por resolução da ONU, de 28/07/10.   Até então, o direito à água era entendido como necessidade humana básica. A resolução da ONU coloca em outro patamar e dá maior visibilidade a um tema fundamental, levando o assunto para além das discussões de urbanistas e ambientalistas.

 Alguns países, como Equador (2008) e Bolívia (2009), foram mais longe e, antes mesmo da ação da ONU, estenderam o direito à água a outros entes, como a própria Natureza e a Mãe Terra, fazendo-o constar em suas respectivas Constituições. A Constituição Brasileira de 1988 estabelece alguns direitos sociais, como saúde, educação, moradia e outros, mas não faz menção à água e saneamento especificamente. 

Salto Barão do Rio Branco - Prudentópolis-PR - set.2021

Conforme números de 2020 do portal do SNIS, 84,1% da população brasileira têm acesso à água encanada, já o acesso a saneamento básico não passa de 55% e apenas metade deste volume é de esgoto tratado. E o desperdício é imenso: cerca de 40% do volume de água tratada se perdem durante o abastecimento, e não é de hoje. Em matéria no site Vozerio, de 2015, o professor Paulo Canedo, da Coppe/UFRJ, já alertava sobre essas perdas.

 No século 20, segundo dados da Unesco, o consumo de água no planeta aumentou seis vezes, duas vezes mais do que a população. Fatores como crescimento da atividade industrial e especialmente do agronegócio contribuíram para esse salto. O recente Relatório mundial das Nações Unidas sobre desenvolvimento dos recursos hídricos 2021 aponta que “a agricultura é responsável por 69% das retiradas de água em âmbito mundial, que é usada principalmente para irrigação, mas também inclui a água para rebanhos bovinos e aquicultura. Essa proporção pode chegar a 95% em alguns países em desenvolvimento”, como é o caso do Brasil. Contudo, prossegue o Relatório, a agricultura é responsável por apenas cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, indicando que “o valor agregado do uso da água na agricultura é muito baixo”. O relatório informa ainda que a indústria – incluindo o uso e a geração de energia – é responsável por 19% do uso da água.

 Em 2019 a Agência Nacional de Águas (ANA) publicou o Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil no qual prevê que o consumo de água no país deve crescer 24% até 2030. Já um estudo do Instituto Trata Brasil mostra que o Novo Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, não teve efeito significativo sobre o acesso da população à água potável ou aos serviços básicos de saneamento. Considerando-se um universo de 215 milhões de habitantes e os percentuais apontados pelo SNIS, os brasileiros que ainda vivem sem água tratada somam 35 milhões e outros 100 milhões não são atendidos pela coleta de esgoto. 

A pandemia de Covid, que circula pelo planeta desde 2020, expôs de modo contundente como este direito fundamental não é respeitado em muitos países, especialmente nos mais pobres. Relatório do Unicef, de outubro de 2020, apontou que apenas três em cada cinco pessoas em todo o mundo têm instalações básicas para a lavagem das mãos e que três bilhões de pessoas, ou 40% da população mundial, não têm lavatórios com água e sabão em casa. O Estado do Rio reflete esta triste estatística: durante a Semana do Meio Ambiente, realizada pela UFRJ em junho último, Guilherme Pimentel, Ouvidor Geral da Defensoria Pública do Estado do Rio, relatou que, durante a pandemia, uma das demandas que o órgão mais recebeu foi sobre a falta de água nas residências e a impossibilidade de manter os cuidados preventivos mínimos contra a doença.

Painel Exposição H2O, ArteSesc Rio, 2009

Se nas áreas urbanas de metrópoles como o Rio de Janeiro o acesso à água limpa é deficiente, no Norte e Nordeste do país a situação é grave, especialmente no semiárido.  O programa de construção de cisternas foi fortemente afetado pelo corte de verbas nos últimos anos e, segundo a rede ASA Brasil (Articulação Semiárido Brasileiro), 350 mil famílias não têm sequer água para beber, dependendo dos caminhões-pipa. De tecnologia simples e eficiência reconhecida pelo Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), as cisternas do semiárido vinham possibilitando às populações daquela região não apenas o acesso à água para consumo próprio, mas permitindo a agricultura, a criação de animais, de modo sustentável e gerando emprego e renda. 

Políticas públicas pensadas em conjunto com a sociedade civil, incluindo informação e educação de qualidade, ensino de técnicas de tecnologia social, aproveitamento de recursos locais, qualificação de mão de obra, devem ser pontos fundamentais em qualquer plano de governo - seja nacional, estadual ou municipal – que esteja verdadeiramente engajado na preservação e restauração do meio ambiente e, por conseguinte, no respeito à natureza, no cuidado com a saúde e dignidade de seu povo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

PEDRO e CHICA (e livros)

Entrava agosto, deste 2020 distópico. Os oito primeiros dias deste mês seriam os últimos, aqui neste planeta, de Pedro e Chica. Não os levou a pandemia que há meses se move pelos continentes. Ele sucumbiu a problemas respiratórios agravados pelo Mal de Parkinson. Ela, com câncer no pulmão.

 Em minha biblioteca, pobre neste gênero literário, coincidentemente estão as biografias deles dois. Livros de papel – esse produto que a política econômica vigente quer taxar, como se luxo ou supérfluo fosse – são como arcas onde histórias de vida de pessoas como Pedro e Chica podem e merecem ser guardadas e preservadas, mesmo numa era digital. 

 

A biografia de Pedro Casaldáliga eu adquiri ano passado, quando conheci a autora, a jornalista Ana Helena Tavares, durante a campanha para as eleições na ABI-Associação Brasileira de Imprensa.  Ao saber do livro, me interessei em conhecer melhor a história de vida do bispo revolucionário. 

É um relato minucioso e, sobretudo, afetuoso, da trajetória do religioso catalão que aportou por aqui em 1968 e fez-se camponês, fez-se indígena, entregando-se às causas dos mais desassistidos. Conheci pessoalmente a biógrafa, mas não o biografado. 

Na página 183, Ana Helena escreve:

“O homem que nasceu rodeado por gado e que tinha todas as possibilidades de buscar prosperidade optou pela libertação. Não é para qualquer um passar dos 90 anos com a coerência dos que abraçaram o povo e nunca se afastaram dele.

"Pedro quer que o povo carregue seu caixão, a pé, sem carreata, tendo como fundo musical Isaías – tempo de advento. E deseja ser enterrado no Cemitério dos Karajá, em São Félix do Araguaia. De baixo de um pé de pequi, ‘entre um peão e uma prostituta’.”

 E assim foi. Seguindo a vontade de Pedro, a cerimônia realizada ontem às margens do Araguaia seguiu seu desejo de ser enterrado sem pompas, junto àqueles que ele elegeu como seus companheiros de jornada.


Chica Xavier eu conheci pessoalmente. Mãe do amigo de longa data Clementino Jr, de quem me aproximei pelos laços do cinema, tive a sorte de estar com ela pelo menos uma vez. E foi exatamente no lançamento de sua biografia, em 2013, escrita pela xará Teresa Montero. O talento da Chica atriz eu já conhecia há tempos, mas a sensação de estar perto dela foi uma bela descoberta. Uma energia luminosa, de harmonia e afeto envolvia quem dela se aproximava. Nas homenagens que agora lhe rendem, vemos muitos relatos sobre essa aura de amor e cuidado que distinguia Chica.


 Assim escreve Teresa Montero à página 19:

            “A trajetória de Chica Xavier é um retrato das contradições de um país que se recusa a se olhar no espelho, a conhecer a sua história, a aceitar as sua formação étnica. O fato de Chica Xavier ter exercido, durante um período, a função de funcionária pública paralelamente à de atriz permitiu-lhe construir um olhar diferenciado e consciente como cidadã e artista.”

            “Para Chica, a fé não é uma trilha para a alienação, para a acomodação, para a passividade. Ela opta pelo caminho do sincretismo, que não divide, não discrimina, não hierarquiza.”

            “A mistura de religião, educação e arte construiu um tipo de mulher bastante singular: a ‘Mãe do Brasil’. A mãe  cuida, protege, sabe a importância de se preservar os rituais, conservar as tradições, dialogar com a Natureza. Ela guia, aponta, conscientiza.” 

Estou certa de que estar perto de Pedro Casaldáliga também era uma experiência especial, algo que faz estremecer a centelha de humanidade que guardamos em nós e nos faz lembrar que, como diz Fernando Pessoa, “o amor é que é essencial” e que o homem não é só matéria, mas uma “carne inteligente”. O lema de Pedro era “humanizar a Humanidade”. Tão necessário nestes tempos sombrios. 

Origens diferentes, trajetórias diferentes. Ele, nascido na Catalunha em 1928. Ela, nascida na Bahia em 1932. Mas há algo que me faz juntar essas duas criaturas, além do fato de terem partido no mesmo dia e de eu ter a história de suas vidas na minha estante: o cuidado com o outro. 

Gosto de pensar que Pedro, o bispo católico, tomou pela mão a Mãe Chica, católica, apostólica, umbandista (como a define no livro sua filha Christina), e juntos foram abrindo porteiras, rompendo cercas e correntes, com a certeza de terem cumprido a missão que Deus, Oxalá, e outros tantos deuses e deusas que possa haver no comando do universo, lhes confiaram. 

Foto funeral Pedro Casaldáliga:

 https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2020/08/12/corpo-de-dom-pedro-casaldaliga-e-enterrado-em-cemiterio-indigena-em-mt.ghtml

terça-feira, 4 de agosto de 2020

SERGIO RICARDO: “EU NÃO ME ENTREGO, NÃO”


Teatro Rival, Rio de Janeiro, novembro 2008
Teatro Rival BR, Rio de Janeiro, novembro 2008

De parabelo na mão, lá se foi Sergio Ricardo, no último dia 23. Seu parabelo era a resistência ao rolo compressor de uma indústria pseudocultural, interessada mais no lucro do que na arte. Compositor, cantor, ator, cineasta, pintor, foram muitos os campos de batalha. Entre danos e ganhos, perdas e vitórias, sempre mantendo a fidelidade a seus princípios. 

No final dos anos 90 e durante a primeira década dos anos 2000, eu fazia matérias sobre cultura para o jornal A Verdade, um veículo independente. Era - e é, pois continua rodando, inclusive no digital – um jornal de orientação marxista, ligado a movimentos de esquerda, a causas operárias e lutas sindicais. Mas, como não se deve perder a ternura, jamais, o jornal também sempre deu espaço para assuntos ligados à cultura. Até porque as manifestações culturais e a própria sobrevivência dos que produzem e trabalham pela arte, estão, como tudo na sociedade, sujeitos aos humores e interesses de quem ocupa os gabinetes da administração pública. Nesses tempos de pandemia, esta realidade evidenciou-se ainda mais. Entre os setores mais afetados pelo isolamento social, está aquele ligado a atividades culturais, já bastante prejudicado pela falta de políticas públicas consistentes. Estão aí músicos, atores, dramaturgos, artistas circenses, cineastas, e afins, batalhando para manter sua arte viva e suas contas pagas. 

Uma das matérias que fiz para a edição bimensal de dezembro-2000/janeiro-2001 daquele jornal foi uma entrevista com Sergio Ricardo. Ele estava à frente de um bonito projeto instalado na antiga estação das barcas, em Niterói, e conversou comigo e com Luiz Assis, militante ligado à direção do jornal. E eu abria o texto assim: 

    Algo de novo acontece na antiga estação das barcas, em Niterói, Estado do Rio de Janeiro. Da velha Officina da Cantareira resta apenas a bela fachada. Em seu interior, lona e palco - um espaço para eventos musicais, com apoio da Prefeitura. Poderia ser só isso, mas para o cantor e compositor Sergio Ricardo - um homem atento à realidade, porém sem abandonar seus sonhos -, é bem mais. O projeto Palco Livre, idealizado por ele, é uma verdadeira trincheira da resistência cultural brasileira. São “jovens” músicos de todas as idades que ali se apresentam, gratuitamente, pelo prazer de tocar e cantar para quem se recusa a consumir o que o compositor Vital Farias apropriadamente chama de “lixo atômico musical poético”.

 Foi uma conversa embalada por sua voz tranquila e inconfundível, durante a qual ele nos contou sobre sua necessidade de manter a coerência entre discurso e prática. A rebeldia do artista não havia sucumbido aos cabelos brancos, o jeito manso de falar não comprometia seu espírito contestador. Sergio Ricardo reconhecia que não obteve o sucesso que outros alcançaram, mas “não luto por isso, não é esse meu objetivo. O que quero é fazer de minha música, de meu trabalho, uma contribuição para a música brasileira”, nos disse. Considerava-se um sujeito de sorte por ter convido com João Donato, Johnny Alf, João Gilberto, e outros compositores que foram importantes para traçar a trajetória que ele abraçaria e à qual se manteria fiel até o final da vida.

 Contou-nos sobre como a Bossa Nova, e depois o Cinema Novo, lhe abriram novas perspectivas. Em suas palavras, “tudo ia muito bem, até que surgir a chamada ditadura e minha sorte tomou outro rumo no sentido profissional, ou seja, na relação de meu trabalho com o público”. As gravadoras fecharam as portas para artistas engajados como ele, Carlos Lyra (que foi para os EUA) e Geraldo Vandré. “Com o AI-5 em 68 a censura resolveu boicotar de vez meu trabalho e fui impedido de tocar nas rádios, de aparecer na televisão. Então as pessoas acabaram esquecendo quem era Sergio Ricardo”, acrescentou.


Teatro FECAP, São Paulo, outubro 2008

Dedicou-se ao cinema, fez filmes premiados, mas não conseguia levar sua música ao grande público, devido ao boicote de gravadoras, rádios e TV’s. Ressentimento? Nenhum, pois entendia a situação como resultado de uma atitude, de uma posição que ele nunca pretendeu abandonar. Não se curvou às empresas que usam seu poder econômico para “fazer da música um comércio e manipular o gosto popular”. As palavras de Sergio Ricardo traduzem o que Jürgen Habermas, na década de 1960, denunciava: as leis de mercado se infiltram na substância das obras, extrapolando a publicidade, de modo que a criação das obras “se orienta, nos setores amplos da cultura de consumo, conforme os pontos de vista da estratégia de vendas no mercado”.

 

Este cenário não variou muito nos últimos 20 anos. Se não há a mão pesada da censura como nos anos 60, 70 (embora existam ultimamente setores ensaiando a volta desse controle violento), há uma mercantilização da cultura e, evocando outro pensador, Stuart Hall, a cultura popular quando é mercantilizada e estereotipada, não constitui “a arena onde descobrimos quem realmente somos, a verdade de nossa experiência”. Apagar a identidade cultural de um povo, para que ele não se reconheça como tal e sim como uma massa homogeneizada e não-pensante, é uma estratégia antiga de dominação.


 Sergio Ricardo nos falou ainda sobre os festivais e de como a qualidade das músicas foi decaindo. Seu legado e sua memória ultrapassam e muito um violão quebrado em protesto num festival de música, em 1967 (o documentário Uma Noite em 67 é um registro desse festival). Talvez a plateia não tenha entendido seu recado na letra de Beto Bom de Bola, ainda que num trecho as rimas sugerissem um recado à ditadura vigente:

Quando bate a nostalgia
Bate noite escura
Mãos no bolso e a cabeça
Baixa, sem procura
Beto vai chutando pedra
Cheio de amargura
Num terreno tão baldio
O quanto a vida é dura
Onde outrora foi seu campo
De uma aurora pura
Chão batido pé descalço
Mas sem desventura
Contusão, esquecimento
Glória não perdura
Mas,
Se por um lado o bem se acaba
O mal também tem cura

O projeto musical que capitaneava na época, e que acontecia sob a lona da Cantareira, era a prova de sua capacidade de se renovar, mantendo suas raízes. Foi com grande entusiasmo que nos falou dos artistas convidados, famosos ou desconhecidos. Referia-se ao projeto como um movimento, não estético e com padrões definidos, mas um movimento capaz de reunir tendências musicais variadas, do sinfônico ao cantador de feira ou à música tribal.

 Tal como o Corisco de sua música para Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964), Sergio Ricardo não se entregou à sanha gananciosa de gravadoras e de uma mídia massificante e seus versos cabem direitinho no triste Brasil de hoje: 

- Se entrega Corisco
- Eu não me entrego não
Eu não sou passarinho
Pra viver lá na prisão
- Se entrega Corisco
- Eu não me entrego não
Não me entrego ao tenente
Não me entrego ao capitão
Eu me entrego só na morte
De parabelo na mão
 


Fotos: Show Ponto de Partida – site oficial do artista - https://www.sergioricardo.com/

Perfil no Facebook: https://www.facebook.com/artistasergioricardo/

Vale a pena ler:

- Matéria do jornal A Tribuna, com citação ao Palco Livre

- Texto-homenagem do jornalista Mario Sergio Conti, aqui.

 

quarta-feira, 10 de julho de 2019

BOA NOITE... E BOA SORTE


“Olá, tudo bem?”. Assim, Paulo Henrique Amorim costumava saudar os que lhe assistiam, na TV, no Youtube. A voz, inconfundível. Para as despedidas, o jornalista adotou o bordão de um colega, o norte-americano Edward R. Murrow. “Good night, and good luck”, ou, “Boa noite, e boa sorte” era marca registrada do repórter da CBS.

EUA, década de 1950. Eram tempos sombrios, como os que vivemos hoje, quando estavam sob constante risco a democracia e a liberdade de imprensa. Murrow, e seu produtor Fred W. Friendly, enfrentaram o Senador Joseph McCarthy e combateram o clima de paranoia gerado pela “ameaça comunista”. Boa noite, e boa sorte foi às telas num belo filme, dirigido por George Clooney, em 2005.


David Strathairn, como Edward Murrow, em "Good Night, and Good Luck".
Não convivi com o PHA. Tive apenas um encontro com ele, no lançamento de seu livro Manual Inútil da Televisão, na Livraria Leonardo da Vinci, em março de 2017. Fico totalmente sem jeito para pedir que me fotografem, tanto ao objeto da foto, no caso o autor/jornalista, quanto ao possível fotógrafo, alguém que esteja por perto. Mas, não quis perder a oportunidade de ter aquele registro. Não é todo dia que podemos ter contato com alguém cujo trabalho admiramos. A foto não ficou lá essas coisas, mas, especialmente hoje, dia em que perdemos o PHA, tem um valor especial. Foi um rápido contato, mas pude dizer a ele que seus “Bichos Curiosos” (quadro fofo que ele apresentava no Domingo Espetacular, da TV Record) era o que salvava os domingos na TV aberta.



Naquele dia, comprei, e ele autografou, dois livros: o citado Manual e O Quarto Poder. É deste último que retiro um trecho e reproduzo aqui, como homenagem a esse profissional ético, corajoso, inteligente e de humor refinado. Por isso, afastado de seu último posto, na emissora de um certo bispo. Foi embora muito cedo, mas com a dignidade que aqueles que rastejam pelas sombras e fogem da luz da verdade jamais conhecerão.

Seguimos aqui, no tempo que nos cabe viver, repetindo uns aos outros: “Boa noite... e boa sorte”.







.“Good night, and good luck” no IMDb: https://www.imdb.com/title/tt0433383/