sexta-feira, 25 de outubro de 2024

CÚPULA DO G20 SE APROXIMA E PAUTA AMBIENTAL É DESTAQUE

 

Parque do Flamengo/Aterro - janeiro 2024

Dezenas de eventos preparatórios antecedem a reunião dos líderes mundiais, marcada para os dias 18 e 19 de novembro, no Rio de Janeiro. O tema da sustentabilidade ambiental e climática é tratado no G20 desde 2017 e, nesta edição de 2024, as questões ligadas ao meio ambiente têm merecido relevância na programação.

A Cúpula do G20 compreende três eixos principais - combate à fome, pobreza e desigualdade; reforma da governança global; sustentabilidade e mudanças climáticas - e está estruturada em duas Trilhas a serem percorridas pelos participantes: a Trilha de Finanças e a Trilha de Sherpas. A Trilha de Finanças trata de assuntos macroeconômicos estratégicos e tem à frente os Ministros das Finanças e presidentes dos Bancos Centrais dos países-membros. Emissários dos líderes do G20 comandam a Trilha de Sherpas e atuam como coordenadores, cabendo a eles supervisionar as negociações e discutir os pontos que formam a agenda da cúpula.

Estas Trilhas, ainda que separadas, têm fortes conexões e são subdividas em grupos de trabalho e forças-tarefa. Cabe à Força Tarefa do Clima discutir aspectos técnicos e financeiros da transição energética, uma vez que a questão climática não pode ser dissociada da economia. As discussões abordam estratégias para o financiamento verde, políticas econômicas para o desenvolvimento sustentável e a mitigação da crise climática. 

Encontros sobre as mudanças climáticas estão acontecendo no decorrer do mês de outubro. O Grupo de Trabalho de Sustentabilidade Climática e Ambiental realizou dia 1º, no Rio de Janeiro, uma reunião técnica e para amanhã, 03/10, tem agendada uma reunião ministerial onde, conforme divulgado no site oficial do evento, “serão debatidos temas como adaptação preventiva e emergencial a eventos climáticos extremos; pagamentos por serviços ecossistêmicos; oceanos; além de resíduos e economia circular.”

 Nos dias 12 e 13 de setembro, na cidade-sede da Cúpula, houve a quarta reunião da Força Tarefa de Mobilização Global contra a Mudança do Clima. Segundo informe publicado no site do Ministério da Fazenda, a embaixadora Tatiana Rosito, coordenadora da Trilha de Finanças e Secretária de Assuntos Internacionais deste Ministério, considerou que houve avanços na busca por “meios de implementação para os grandes objetivos de desenvolvimento sustentável”. Segundo Rosito, é fundamental identificar os obstáculos à ampliação dos recursos e definir estratégias para lidar com estes entraves, destacando que é preciso “facilitar a mobilização de recursos privados e o melhor compartilhamento de riscos”. 

A secretária Nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente, Ana Toni, em matéria do Portal da EBC, ressaltou a importância de ter uma força-tarefa que junte financiamento, mudança do clima e meios de implementação.  

Visando a descentralização das atividades, várias reuniões dos Grupos de Trabalho vêm sendo realizadas pelo país, desde o início do ano,  sob a forma de videoconferência ou presenciais, como houve no mês de abril em Brasília e em julho em Belém,  cidade que sediará a COP-30, em 2025. Acontecem também, até o dia 04/10, reuniões Grupo de Trabalho GT de Transições Energéticas, em Foz do Iguaçu-PR. A cidade foi escolhida por abrigar a Itaipu Binacional que, além de responsável por cerca de 10% do suprimento de eletricidade do Brasil e 88% do Paraguai, também representa a integração energética em países.

 O G20 Social, uma inovação criada pelo Brasil para a Cúpula,  também vem promovendo encontros preparatórios, como o que aconteceu no dia 20/08 na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro. Com extensa programação e grande participação popular – foram mais de 2 mil inscritos – o evento teve a presença de ministros e autoridades estaduais e municipais. As propostas acolhidas neste evento preparatório servirão de base para as reuniões do G20 Social, de 14 a 16 de novembro.

 O Grupo de Trabalho (GT) de Sustentabilidade Ambiental e Climática iniciou suas atividades em 26 de janeiro, quando a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o embaixador André Corrêa do Lago, do Ministério de Relações Exteriores, apresentaram os eixos principais a serem debatidos ao longo das reuniões que se sucedem até novembro. 

Fontes:

Reunião da FT-Clima prepara documentos para apreciação ministerial — Ministério da Fazenda

 G20 Brasil: Outubro inicia com reuniões cruciais para os debates do fórum

Matéria publicada no site da ABI: Cúpula do G20 se aproxima e pauta ambiental é destaque | ABI


domingo, 29 de setembro de 2024

DIA MUNDIAL DOS RIOS



Arte de Geraldo Cantarino, Comissão de Meio Ambiente/ABI

Desde 2005, o último domingo de setembro tem uma missão especial: celebrar os rios do mundo. Criado a partir da ação de ativistas ambientais e na sequência do lançamento da iniciativa das Nações Unidas Water for Life Decade (Década Água para a Vida), o Dia Mundial dos Rios nos lembra que os cursos d’água, desde os pequeninos aos mais caudalosos e extensos, são como veias que alimentam a vida no planeta.

Se a celebração desta data há anos esbarra na constatação de que muitos rios estão contaminados, poluídos, sufocados por barragens, neste 29 de setembro de 2024 a apreensão, a tristeza, a indignação, são ainda maiores. Enquanto rios transbordam, cidades ficam submersas, no sul do País e em outras partes do mundo, secas devastadoras atingem muitos países trazendo a ameaça da desertificação. Cúpulas e reuniões, como as COPs (Conference of the Parties), discutem há anos as mudanças climáticas, o aumento da temperatura e nível dos oceanos, o aquecimento global, a transição energética, mas os avanços, as ações efetivas são escassas e, muitas vezes, questionáveis.

Na Amazônia, gigantes como o Rio Negro e o Solimões estão irreconhecíveis, afetando milhões de pessoas. No sudeste do Brasil alguns rios, como o Paracatu em Minas Gerais, vêm agonizando há anos. Se as causas são várias, suas raízes convergem para pontos em comum. Especialistas atestam que rios secam não apenas por falta de chuvas. Com o desmatamento e o uso inadequado do solo, além da ocupação desordenada, a infiltração da água na terra fica prejudicada, fazendo com que as nascentes sequem. 

Seca no Rio Solimões - Foto: Araquém Alcântara

Os incêndios que devoram milhares de hectares no Sudeste, Centro-Oeste e Norte agravam ainda mais este cenário. No Cerrado, região mais afetada nos últimos meses e que abriga as nascentes de oito bacias hidrográficas que abastecem o país, o fogo ameaça a segurança hídrica, a produção de energia e de alimentos. Além de dizimar flora e fauna, a biodiversidade do país.

Mas a esperança resiste. Se há os que poluem, os que desmatam e provocam a morte das nascentes, há também guardiões das águas. A International Rivers, por exemplo, criou o Dia Internacional de Ação pelos Rios, celebrado em 14 de março. A organização incentiva e divulga ações de proteção aos rios, em várias partes do mundo.

 

Rio Preto, divisa RJ-MG



O Rio Preto, que percorre a divisa entre os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, também tem seus protetores. Promovendo caminhadas e eventos solidários à beira do rio, mutirões de limpeza, compartilhando informação, os ativistas lutam pela preservação do seu amado Preto.


O acesso à água está consagrado como Direito Humano desde 2010, por Resolução da ONU. Em Brasília, tramita na Câmara dos Deputados a Proposta de Emenda à Constituição PEC 6/2021 que propõe incluir na Constituição Federal o acesso à água potável entre os direitos e garantias fundamentais. Direito à água potável é direito à vida, portanto todo apoio deve ser dado à aprovação desta PEC, como faz a Campanha lançada em fevereiro pela Associação Brasileira de Imprensa-ABI.

Que o Negro, cortando a Amazônia, o Preto, percorrendo o Sudeste, e todos os rios do planeta sejam tratados como entes portadores e geradores de vida, integrados num sistema em que águas, terra e ar trabalham em conjunto e precisam estar em harmonia. E que no último domingo de setembro de 2025 possamos celebrar com mais otimismo nossas fontes de água doce.

 

Matérias relacionadas:

Rio Paracatu: Rio Paracatu agoniza em mais um período de estiagem - CBHSF : CBHSF – Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (cbhsaofrancisco.org.br)

Cerrado: Por que as queimadas no Cerrado ameaçam a segurança hídrica | ABI

Imagens da seca na Amazônia/Fotógrafo Araquém Alcântara: Facebook

Seca na Amazônia: Pior seca já registrada faz rios da Amazônia atingirem baixa histórica | CNN Brasil

Rio Preto: TECELÃ: PRETO – UM RIO QUE SEPARA ESTADOS E UNE PESSOAS (tecelan.blogspot.com)

Dia Mundial da Água: TECELÃ: CAMPANHA DA ABI É DESTAQUE NO DIA MUNDIAL DA ÁGUA (tecelan.blogspot.com)

PEC 6/2021 – Direito Humano à água: ABI em campanha pela aprovação da PEC da Água Potável | ABI


terça-feira, 24 de setembro de 2024

G20 SOCIAL REÚNE CENTENAS DE PARTICIPANTES EM ENCONTRO PREPARATÓRIO PARA A CÚPULA DE NOVEMBRO


A Cúpula do G20, que tem este ano o Brasil na Presidência, traz uma inovação: o G20 Social. Sob a coordenação da Secretaria-Geral da Presidência da República, o braço social do G20 se apresenta como uma tribuna aberta, que agrega e discute propostas de movimentos sociais de base, lideranças comunitárias e campesinas, associações populares. Como preparação para o evento marcado para novembro, foi realizado ontem (20/08) o Encontro Preparatório da Cúpula do G20 Social, na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro.

Estiveram no encontro representantes das organizações da sociedade civil e de movimentos populares, dos governos municipal e estadual e também Ministros de Estado, entre eles Marina Silva, do Ministério do Meio Ambiente. Num ponto as falas dos membros da mesa de abertura convergiram: o protagonismo do Brasil no grupo das vinte maiores economias mundiais, viabilizado e ampliado pela atuação do Presidente Lula, inclusive em eventos dos quais participou no exterior. Marina Silva destacou que este caráter social, participativo, é uma diretriz que marca a gestão de Lula. Foi também lançada a plataforma G20 Social Participativo, que permite o envio de propostas, enquetes, cadastro de atividades autogestionadas e consulta pública.

 


Dentre os três principais eixos da Cúpula - combate à fome, pobreza e desigualdade; reforma da governança global; sustentabilidade e mudanças climáticas – pode-se dizer que é em torno deste último que transitam os demais. As políticas escolhidas pelos governos em todo mundo para gerir a economia, o uso dos recursos naturais, a produção de alimentos e sua distribuição, repercutem em outras latitudes. De fato, cada país é um pedaço do planeta e o efeito do que os líderes mundiais definem como suas prioridades ultrapassa suas fronteiras.

Na Mesa sobre Sustentabilidade, Mudanças Climáticas e Transição Justa, André Aquino, Coordenador do G20 junto ao Ministério do Meio Ambiente, citou a Força Tarefa do Clima, lançada pelo Ministério para discutir conjuntamente aspectos técnicos e financeiros da transição energética, uma vez que a questão climática não pode ser dissociada da economia. Citou também a proposição do Brasil para que sejam ratificados dois tratados internacionais: um sobre os oceanos/alto mar, que não está sob a soberania de nenhum país, e outro sobre a reforma dos Bancos internacionais para que aumentem o fluxo de investimentos destinados à transição energética.

Alguns destaques das falas desta Mesa foram: a necessidade de os trabalhadores participarem das discussões e não apenas serem treinados e readaptados (FUP-Federação Única dos Petroleiros); o alerta sobre as falsas alternativas mostradas como “verdes” mas que na verdade priorizam o lucro (Grupo Carta de Belém); a necessidade de mudar o atual sistema de caráter extrativista, colonialista, origem dos problemas enfrentados atualmente, sugerindo a celebração de um Jubileu de Esperança, com a proposta de um mês de repouso da Terra, a ratificação pelo Brasil do Tratado de Escazú e o fim da perseguição àqueles que lutam pelos Direitos Humanos e da Natureza (Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB).

Os participantes foram convocados a elaborar propostas, em grupos, das quais três consideradas mais relevantes serão encaminhadas a uma Comissão de Sistematização que organizará o que será levado ao G20 Social para a etapa final, nos dias 15, 16 e 17 de novembro. Entre as propostas apresentadas, foi lembrada a relevância do setor pesqueiro e a necessidade do bloqueio a usinas eólicas offshore; a importância do acesso à água como bem comum; a reparação de perdas e danos por parte dos países mais poluidores; o incentivo à educação ambiental; a não financeirização dos bens da natureza. Foram lembrados ainda o combate ao racismo ambiental, a importância da adoção da agroecologia e do monitoramento do uso de agrotóxicos.

(Matéria publicada no site da ABI - G20 social reúne centenas de participantes em encontro preparatório para a cúpula de novembro | ABI ).

sábado, 17 de agosto de 2024

DE DESERTOS E DEGELOS

 

Sicília, Itália

A Sicília, além de suas belezas naturais e gastronomia celebradas pelo mundo, ganhou espaço também nas telas do cinema, especialmente em filmes sobre a Máfia. Quem não conhece Don Corleone, o Godfather, personagem inesquecível da obra prima de Francis Ford Copolla? Pois a bela Sicília aparece agora nas páginas e telas da mídia europeia com notícias nada animadoras: a ilha italiana pode ver um terço de seu território transformado em deserto, até 2030 (matéria da Euronews aqui).

Não são apenas os sicilianos que correm o risco de ver sua terra natal murchar. Várias regiões no planeta vêm sofrendo com secas cada vez mais frequentes e duradouras, trazendo a ameaça da desertificação. Não por acaso a ONU incluiu em seu calendário um dia para alertar a sociedade sobre este perigo. A data escolhida foi 17 de junho e, desde 1995, o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca  é lembrado pela Organização.

O ano de 2023 foi de recordes de calor e 2024 segue no mesmo ritmo. A situação é tão crítica que o Secretário Geral da  ONU fez, no final de julho, um chamado à ação para combater “epidemia de calor extremo”. António Guterres destacou as centenas de mortes provocadas pelo calor, os prejuízos para a economia, a necessidade de proteção aos trabalhadores, reforçando a urgência de os governos criarem planos de ação para o enfrentamento da crise climática em suas várias feições.

Se olharmos para a COP 28, realizada em Dubai no final de 2023, por exemplo, constatamos que Guterres não exagera em sua preocupação. Considera-se que a reunião produziu um acordo histórico ao explicitar a necessidade de abandonar os combustíveis fósseis, mas não foram estabelecidas ações claras para a efetiva implementação desta transição.

BRASIL

No Brasil temos visto nas últimas semanas o encolhimento dos rios na Amazônia, afetando 6 milhões de pessoas, conforme matéria da Revista Forum. Movimentos sociais encaminharam ao Governo Federal um documento enumerando medidas a serem tomadas com urgência.

O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) identificou, apenas na Região Sudeste, 122 municípios suscetíveis à desertificação, especialmente no norte de Minas Gerais. Segundo dados do Centro, a região apresentou 253 municípios com condição de seca extrema e 673 com condição severa. A agricultura familiar, fundamental para o abastecimento interno e pela preservação ambiental, é um dos setores mais prejudicados pelas secas, destaca o Cemaden.

Cordilheira dos Andes

E o degelo? Nosso vizinho Peru assiste as geleiras da cordilheira dos Andes derreterem mais e mais a cada dia. O risco de acidentes limita o turismo e as tradições dos povos originários se vêm ameaçadas já que os locais sagrados vão se modificando. Não apenas a quantidade, mas a qualidade da água também é afetada, já que se torna mais ácida.

Um estudo da Universidade de Engenharia e Tecnologia do Peru prevê que até 2050, a cordilheira central dos Andes poderá perder entre 84 a 98 por cento dos seus glaciares (veja matéria aqui). Os resultados do estudo foram publicados em maio no Journal of Water and Climate Change.

Levantamento do MapBiomas Peru também traz conclusões preocupantes. Mapeando as mudanças no uso da terra nos últimos 38 anos, constatou-se a perda de 4,1 milhões de hectares de vegetação natural, incluindo ecossistemas de florestas, arbustos, pastagens, pastos e manguezais. A expansão desordenada das atividades humanas, como agricultura, mineração, aquicultura e infraestrutura, com o decorrente avanço do desmatamento, estão na origem do derretimento das geleiras.

Foto Sicilia: Si aggrava la siccità in Sicilia, acqua razionata per oltre 1 milione di siciliani (tempostretto.it)

Foto Andes: O derretimento das geleiras na Cordilheira dos Andes e a falta d’água (conexaoplaneta.com.br)


quarta-feira, 5 de junho de 2024

PRETO – UM RIO QUE SEPARA ESTADOS E UNE PESSOAS

“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”.

 (Alberto Caeiro/Fernando Pessoa)

 


Rio Preto em Porto das Flores, divisa RJ-MG

 Visconde de Mauá-RJ acolheu no último dia 25 de maio o III Fórum do Rio Preto. Desconhecido por muitos, o Rio Preto é protagonista de um importante, e não menos cativante, movimento da sociedade civil. Moradores de duas pequenas localidades vêm trabalhando há décadas pela preservação do rio que as divide. Porto das Flores, distrito de Belmiro Braga-MG, se liga a seu vizinho fluminense, o distrito de Manuel Duarte, no município de Rio das Flores, por uma ponte, quase centenária. Sob esta ponte, as águas do Rio Preto seguem livremente desde as nascentes até a foz, sendo, segundo os pesquisadores, uma das últimas poupanças e refúgios de biodiversidade aquática da bacia do rio Paraíba do Sul. É, por exemplo, casa do peixe surubim, espécie em risco de extinção.

Ponte sobre o Rio Preto em Manuel Duarte/Porto das Flores

O fórum, iniciativa do Comitê do Médio Paraíba, reuniu mais uma vez os ativistas dos dois distritos, bem como entidades e representantes de vários outros municípios da bacia do Rio Preto. Desde o final dos anos 1980, diante da ameaça da construção de barragens para instalação de PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) na região, vários encontros, discussões, debates, vêm sendo realizados pelo grupo, com o apoio das respectivas prefeituras. Um dos líderes do movimento é o arquiteto e urbanista Annibal Magalhães, que percorre há anos o trajeto do Preto, observando e registrando suas curvas, corredeiras, pedras, histórias.

Sede do Parque da Pedra Selada

 



Procissão de canoas (canoada) no Rio Preto em homenagem a N.Sra.Aparecida


Canoada realizada no mês de outubro










Movem estes ativistas, e todos que participaram do encontro em Visconde de Mauá, a certeza de que a preservação da biodiversidade, dos ecossistemas, o controle na exploração de recursos naturais, a proteção de nossa casa comum, enfim, é um tema que não pode mais ser ignorado em qualquer pauta que envolva políticas públicas, em especial no Brasil onde as agressões ao meio ambiente avançaram drasticamente nos últimos anos. Muito além de uma visão romântica de amor à natureza (necessário, sim), é incontestável, hoje, a importância das ações que visem proteger florestas, fauna, flora, terras, águas e o ar que respiramos. Eventos extremos se sucedem aqui e em outros cantos do mundo, destruindo, matando e fazendo soar o alerta de que nosso planeta azul não suporta mais tanta destruição.

Não cabe mais, igualmente, a alegação de que preservação da natureza, dos biomas, significa atraso no desenvolvimento, uma trava no crescimento econômico. Cabe, sim, perguntar: que tipo desenvolvimento queremos? No ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que agrega ao PIB valores indispensáveis a uma sociedade, como educação e saúde, o Brasil ocupa a 89ª posição entre 193 países, com um índice de 0,760 (dados coletados em 2022). E mesmo quando há crescimento econômico, nem sempre isto se traduz em diminuição da pobreza, da desigualdade.

Um rio, muitas pontes

Ponte sobre o Rio Preto no Distrito de Três Ilhas




O Rio Preto é federal porque divide dois estados, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ignorando solenemente as convenções políticas, suas águas vão banhando igualmente municípios fluminenses e mineiros, ora suavemente, ora exibindo corredeiras e até cachoeiras imponentes. Os moradores de ambos os lados atravessam não apenas pontes concretas, mas pontes de amizade, fortalecidas pelo amor ao rio e pela consciência de sua importância para o meio ambiente, para o chão onde nasceram, cresceram, guardam suas memórias. O rio que os separa também os une.

Os caminhos do Preto

Cachoeira da Fumaça - Resende-RJ

Cachoeira da Fumaça - Resende-RJ

Corredeiras (Foto Annibal Magalhães)

Corredeiras de Santa Rosa - Passa Vinte-MG


Rio Preto na vila de Visconde de Mauá-RJ



Passa Vinte-MG







As prefeituras das duas cidades já realizaram audiências públicas apresentando à população o estudo elaborado por técnicos que embasa a proposta de criação do MONA - Monumento Natural Municipal Corredeiras e Piracemas do Rio Preto. O estudo enumera as principais ameaças à integridade ambiental do ecossistema do rio, tais como assoreamento, extração clandestina de areia e garimpo, lançamento de esgoto e produtos químicos, destacando a maior delas: a implantação de uma sequência empreendimentos hidrelétricos (uma Usina Hidrelétrica e 11 Pequenas Centrais Hidrelétricas).

 Em contraponto às ameaças, a proposta de criação do monumento natural destaca as vantagens da preservação do Rio Preto e seu entorno, região de alto potencial turístico. O biólogo Paulo Bidegain, assessor do Deputado Estadual Carlos Minc e que dá apoio à luta dos defensores do Rio Preto, propõe que o rio seja convertido em AEIT - Área Especial de Interesse Turístico, condição prevista em lei. 



Mesa: Diálogo e articulação interinstitucional para proteção da integridade ecológica do Rio Preto, Rio Preto Livre - (direita para esquerda) Annibal Magalhães, Guilherme Souza (Projeto Piabanha), Paulo Bidegain  (Foto: Amigos de Porto das Flores)


Educação Ambiental também foi tema de debates

O Fórum, com a presença de prefeitos, gestores de unidades de conservação, de comitês de bacias, discutiu esta e outras questões vitais para a preservação do rio e toda forma de vida que ele alimenta e gera. Vários especialistas – biólogos, historiadores, urbanistas, ecologistas - apresentaram suas pesquisas. Importantes pontos e conceitos foram abordados, tais como:

 - a gestão das águas (competência federal) é também a gestão de terras (competência estadual e municipal), daí a necessidade de integrar as ações.

 - os Comitês de Bacia têm o diferencial de pensar além dos quatro anos dos mandatos dos políticos.

 - alguns rios em Minas Gerais, como o Paracatu, já desapareceram. Há necessidade de se criar um consórcio de municípios da região a fim de elaborar um projeto para saneamento que, levado a Brasília, possa sensibilizar os Deputados Federais.

 Estas e outras propostas, ideias e conhecimentos foram compartilhados durante o evento em Visconde de Mauá. No encerramento, o III Fórum emitiu uma Carta Aberta em Defesa do Rio Preto que pode ser acessada aqui.

 Como nosso assunto aqui é água, cabe lembrar que tramita na Câmara dos Deputados a Proposta de Emenda à Constituição PEC 6/2021 que propõe incluir na Constituição Federal o acesso à água como Direito Humano, tal como aprovado por Resolução da ONU em 2010. Direito à água potável é direito à vida. Se aprovada, garantirá mais peso a demandas como as levantadas pelos guardiões do Rio Preto.

 E o Preto carrega em suas águas uma enorme responsabilidade: a de ser um corpo d’água que ainda se mantém consideravelmente limpo. É uma “pérola”, segundo seus protetores. São águas que desembocam no Rio Paraibuna e daí seguem até o Paraíba do Sul, rio que abastece cerca de 14 milhões de pessoas em quase duas dezenas de municípios, inclusive toda a Região Metropolitana da cidade do Rio de Janeiro (através do Rio Guandu).

 Vida longa ao Preto, livre, limpo, cantando suave ou rosnando nas quedas, oculto nas matas, beirando as aldeias, belo para todos que a ele pertencem, ou, como diz o poeta português, para “quem está ao pé dele”.

 

- Poema citado: "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia", de Alberto Caeiro - RTP Ensina

 - A Associação Brasileira de Imprensa-ABI lançou em março uma campanha pela aprovação da PEC 6/2021, a PEC da água potável. ABI em campanha pela aprovação da PEC da Água Potável | ABI