“A música não
faz a revolução, nosso poder é o de encantar, informar, alegrar, e, em
determinados momentos, formar. Podemos fazer política sem ser políticos. Mas
não somos donos do país, somos regidos por um sistema, de acordo com ele ou
não." (Gonzaguinha, 1978)
Manhã do dia 29 de abril de 1991.
Um acidente na BR-280, no Paraná, interrompe a carreira do Moleque Gonzaguinha.
Mas se a carreira foi interrompida, suas idéias e sua voz permanecem vivas em
suas músicas e suas declarações. Poucos talvez tenham conseguido traduzir tão
bem a eterna frase de Che Guevara “Endurecer sem perder a ternura
jamais”. Com suas letras ferinas, sua língua
afiada, direta - às vezes camuflada, para ludibriar a censura - ele não deu
trégua aos poderosos, corruptos, exploradores e enganadores do povo.
“Memória de
um tempo onde lutar / por seu direito / é um defeito que mata / são tantas
lutas inglórias / são histórias que a história / qualquer dia contará / de
obscuros personagens”.
Ele soube
igualmente expressar sua individualidade, seus temores e anseios, tão humanos e
por isso tão universais. Se não teve medo de remar contra a corrente,
enfrentando a repressão política, também não teve pudores ou vergonha de se
expor como um homem romântico, sensível.
“Um homem
também chora menina, morena / também deseja colo / palavras amenas / precisa de
carinho / precisa de ternura / precisa de um abraço / da própria candura /
Guerreiros são pessoas / tão fortes, tão frágeis / guerreiros são meninos no
fundo do peito / precisam de um descanso / precisam de um remanso / precisam de
um sonho / que os torne refeitos”
Sua grandeza como cidadão era alimentada por
sua consciência como indivíduo. Seja ironizando a hipocrisia burguesa, gritando
contra a opressão ou cantando as alegrias e chorando os conflitos do amor,
sempre soube dar seu recado com a mesma competência.
“Chega de tentar / dissimular / e disfarçar / e
esconder / o que não dá mais pra ocultar / ... / Explode coração”
As coisas mais simples ganhavam
uma nova força através de suas palavras, porque Gonzaguinha tinha a sabedoria
de perceber que no cotidiano, na simplicidade é que estão as lições realmente
importantes da vida. Atento à dura realidade de seu povo, suas letras às vezes
soam como verdadeiros sinais de alerta. É assim quando diz que “a vida é
trabalho e sem o seu trabalho um homem não tem honra, se morre, se mata”. Como não lembrar desses versos ao ver hoje a grande massa
de desempregados? Passados dez anos de sua morte, os que o admiram lamentam,
além de sua ausência física, que pouca coisa tenha mudado no país que ele amou
e retratou como ninguém. Que
farto material ele teria hoje – e como é triste constatar isso – com os
escândalos com que o povo é “brindado” quase que diariamente, como os da Sudam,
da violação do painel de votação do Senado, da corrupção no futebol...
“Se me der um beijo eu gosto/ se me der um tapa eu
grito / se me der um grito não calo/ se mandar calar mais eu falo”
Gonzaguinha foi um homem
urbano, mas seu olhar soube também captar e entender os segredos da terra, do
sertão e os revelou com inigualável poesia, seja na beleza,
“Saboreie de mancheia / os mil frutos desses
quintais / onde reina a passarada / ensinando seus sinais / os sinais que a
natureza / dá pro homem se guiar / se é de vida ou se é de morte / se é de
chuva ou vai secar / só com olhos de menino / se é capaz de decifrar / os
mistérios ficam claros / é ter olhos de enxergar”
seja na dor,
“Sem memória e sem destino eu ergo o braço cego ao
sol de um mundo meu / meu só? / Me reflito, o pé descalço, a mão de lixa, a
roupa rota, o sujo, o pó, o pó, o pó / morte ao gesto de uma fome – é mentira /
morte ao grito de injustiça – é mentira / viva em vera, a igualdade o valor”
seja na
denúncia, no inconformismo com a exploração do homem por aqueles ditos “justos”
“Pelos campos arei terreiros / pés na lama plantei
sementes / para os ditos tão justiceiros / Ai, Deus meu! / ... / As cidades,
minha canseira / construí com tijolo e sangue / para os ditos tão justiceiros /
Ai, Deus meu! / Nunca provei dos frutos das minhas mãos”.
Moleque, sua arma às vezes era o
deboche, diante dos absurdos que assolam o país, como a massificação
da cultura,
“Salve
a maravilha eletrônica / que já resolveu a fome crônica / mares de antenas de
TV pelo país / tornam nosso índio mais alegre / mais feliz”
a violência urbana, o despreparo e a corrupção das
polícias ou a roubalheira desmedida dos
políticos
“Onda de
violência se abate sobre as cidades / todo mundo rouba todo mundo / ninguém
sabe mais quem é ladrão / ou quem é polícia / ... / A concorrência oficial não tá deixando pra
ninguém”.
Tal como Chico
Buarque, Gonzaguinha demonstrou sua capacidade de ir fundo na alma feminina,
tanto no aspecto sentimental
“Por acaso algum dia você se
importou / em saber se ela tinha vontade ou não / e se tinha e transou / você
tenha a certeza / de que foi uma coisa maior para dois”
como diante da sociedade
“Que uma mulher pode nunca
nada, isso eu já sei / é o grito da dona moral todo dia no ouvido da gente".
TRAJETÓRIA
“No medo
não tremo, não corro, / avanço, me lanço, estouro / valente, eito combato, / e
ao mesmo tempo me trato / covarde na sabedoria / que ergue, cresce e se cria /
só na hora boa e precisa / e corta o mal bem onde enraíza / que é pra não
voltar”
Ele nasceu Luiz
Gonzaga do Nascimento Júnior, em 22 de setembro de 1945, no Rio de Janeiro. Aos
dois anos perdeu a mãe, Odaléia Guedes, tuberculosa. O pai, Luiz Gonzaga, Rei do Baião, o entregou para ser criado
pelos padrinhos, Dina e Xavier, que tocava violão nas ruas de Copacabana.
Típico menino de subúrbio, o Moleque Gonzaguinha cresceu e aprendeu nas
ladeiras do Morro de São Carlos, no bairro do Estácio, carregou sacolas na
feira para ganhar uns trocados e contabilizou alguns acidentes, como os que o
deixaram com a visão do olho esquerdo prejudicada. A convivência com a música
começou em casa, com o padrinho, fortalecendo-se depois nos contatos com a ala
de compositores da Escola de Samba Unidos de São Carlos. Escreveu sua primeira composição, Lembranças da Primavera, aos 14 anos.
Em
1961, decidido a estudar economia, foi morar com o pai, que tinha melhores
condições de custear seus estudos. Dividia-se então entre os livros, o violão e
o futebol. Pouco a pouco o moleque começou a dar
lugar ao homem crítico, consciente, comprometido com o seu tempo.
Com
Ivan Lins, Aldir Blanc, Paulo Emilio e César Costa Filho criou o MAU-Movimento
Artístico Universitário. Contratados pela TV Globo, o grupo acabou se
dissolvendo devido a divergências quando da renovação do contrato. Logo vieram
os problemas com a censura. A música Comportamento Geral,
apresentada no programa de Flavio Cavalcanti em 1973, já demonstrava a que o
compositor vinha:
“Você
deve aprender a baixar a cabeça e dizer sempre muito obrigado / São palavras
que ainda te deixam dizer por ser homem bem disciplinado / Deve pois só fazer
pelo bem da Nação tudo aquilo que for ordenado”
Muitas foram suas “visitas” ao DOPS, órgão de repressão da
ditadura militar. Dezenas de músicas suas foram vetadas pelos censores. Mas ele
não se intimidou, soube, malandramente, driblar a censura com letras alegóricas
e nos shows exprimia abertamente suas preocupações com os destinos do país.
Em 1975 passou
a trabalhar de forma independente, dispensando os empresários da música. Essa
atitude foi fundamental para sua carreira e, segundo ele, recuperou a base
humana do trabalho, já que dessa forma mantinha contato com diversas pessoas. E
a pessoa sempre foi sua matéria-prima preferida.
“Porque não há uma coisa
‘mais maior de grande’ do que a pessoa e porque somente juntos, somente unidos,
é que nós vamos conseguir uma coisa bem maior chamada a nossa liberdade”
( 1984)
Mas este foi
também o ano em que teve tuberculose. Aproveitou o descanso forçado para
repensar a vida e a carreira. Recuperado, iniciou uma série de excursões pelo
Brasil e, entre outras coisas, constatou a importância de seu pai na música
brasileira. Uma relação estremecida pelo distanciamento durante a infância
acabou se estreitando e em 1981 os dois faziam juntos o show “Vida de
Viajante”. Foram inúmeros sucessos onde a qualidade artística sempre esteve
aliada à lucidez, ao senso crítico diante do mundo à sua volta.
Com
Ângela, sua primeira esposa, teve dois filhos, Daniel e Fernanda. Casou-se
depois com Louise Margarete, a Lelete, e junto a ela passou os últimos doze
anos de sua vida, a maior parte deles em Belo Horizonte, MG. Desse casamento
nasceu Mariana.
Apaixonado
pela vida, mesmo consciente de que ela deveria ser melhor (“e será”),
considerava-se um “eterno aprendiz” e pregava que é necessário “viver e não ter
a vergonha de ser feliz”.
Nos
versos de “Com
a perna no mundo” ele dizia para a madrinha:
“Ô Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
...
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar”
Este fogo com
certeza não se apagou e nem se apagará.
Nota: Esta matéria foi publicada no jornal A Verdade em abril de 2001.
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