quinta-feira, 30 de abril de 2026

10 + 25 ANOS SEM GONZAGUINHA

Relíquias em vinil

“A música não faz a revolução, nosso poder é o de encantar, informar, alegrar, e, em determinados momentos, formar. Podemos fazer política sem ser políticos. Mas não somos donos do país, somos regidos por um sistema, de acordo com ele ou não." (Gonzaguinha, 1978)

      Manhã do dia 29 de abril de 1991. Um acidente na BR-280, no Paraná, interrompe a carreira do Moleque Gonzaguinha. Mas se a carreira foi interrompida, suas idéias e sua voz permanecem vivas em suas músicas e suas declarações. Poucos talvez tenham conseguido traduzir tão bem a eterna frase de Che Guevara “Endurecer sem perder a ternura jamais”. Com suas letras ferinas, sua língua afiada, direta - às vezes camuflada, para ludibriar a censura - ele não deu trégua aos poderosos, corruptos, exploradores e enganadores do povo.

 “Memória de um tempo onde lutar / por seu direito / é um defeito que mata / são tantas lutas inglórias / são histórias que a história / qualquer dia contará / de obscuros personagens”.

      Ele soube igualmente expressar sua individualidade, seus temores e anseios, tão humanos e por isso tão universais. Se não teve medo de remar contra a corrente, enfrentando a repressão política, também não teve pudores ou vergonha de se expor como um homem romântico, sensível.

“Um homem também chora menina, morena / também deseja colo / palavras amenas / precisa de carinho / precisa de ternura / precisa de um abraço / da própria candura / Guerreiros são pessoas / tão fortes, tão frágeis / guerreiros são meninos no fundo do peito / precisam de um descanso / precisam de um remanso / precisam de um sonho / que os torne refeitos”

     Sua grandeza como cidadão era alimentada por sua consciência como indivíduo. Seja ironizando a hipocrisia burguesa, gritando contra a opressão ou cantando as alegrias e chorando os conflitos do amor, sempre soube dar seu recado com a mesma competência.

“Chega de tentar / dissimular / e disfarçar / e esconder / o que não dá mais pra ocultar / ... / Explode coração”

      As coisas mais simples ganhavam uma nova força através de suas palavras, porque Gonzaguinha tinha a sabedoria de perceber que no cotidiano, na simplicidade é que estão as lições realmente importantes da vida. Atento à dura realidade de seu povo, suas letras às vezes soam como verdadeiros sinais de alerta. É assim quando diz que “a vida é trabalho e sem o seu trabalho um homem não tem honra, se morre, se mata”. Como não lembrar desses versos ao ver hoje a grande massa de desempregados? Passados dez anos de sua morte, os que o admiram lamentam, além de sua ausência física, que pouca coisa tenha mudado no país que ele amou e retratou como ninguém.  Que farto material ele teria hoje – e como é triste constatar isso – com os escândalos com que o povo é “brindado” quase que diariamente, como os da Sudam, da violação do painel de votação do Senado, da corrupção no futebol...

“Se me der um beijo eu gosto/ se me der um tapa eu grito / se me der um grito não calo/ se mandar calar mais eu falo”

Gonzaguinha foi um homem urbano, mas seu olhar soube também captar e entender os segredos da terra, do sertão e os revelou com inigualável poesia, seja na beleza, 

“Saboreie de mancheia / os mil frutos desses quintais / onde reina a passarada / ensinando seus sinais / os sinais que a natureza / dá pro homem se guiar / se é de vida ou se é de morte / se é de chuva ou vai secar / só com olhos de menino / se é capaz de decifrar / os mistérios ficam claros / é ter olhos de enxergar”

seja na dor,

“Sem memória e sem destino eu ergo o braço cego ao sol de um mundo meu / meu só? / Me reflito, o pé descalço, a mão de lixa, a roupa rota, o sujo, o pó, o pó, o pó / morte ao gesto de uma fome – é mentira / morte ao grito de injustiça – é mentira / viva em vera, a igualdade o valor”

seja na denúncia, no inconformismo com a exploração do homem por aqueles ditos “justos”

“Pelos campos arei terreiros / pés na lama plantei sementes / para os ditos tão justiceiros / Ai, Deus meu! / ... / As cidades, minha canseira / construí com tijolo e sangue / para os ditos tão justiceiros / Ai, Deus meu! / Nunca provei dos frutos das minhas mãos”.

       Moleque, sua arma às vezes era o deboche, diante dos absurdos que assolam o país, como a massificação da cultura,

         “Salve a maravilha eletrônica / que já resolveu a fome crônica / mares de antenas de TV pelo país / tornam nosso índio mais alegre / mais feliz”

a violência urbana, o despreparo e a corrupção das polícias ou a roubalheira desmedida  dos políticos

            “Onda de violência se abate sobre as cidades / todo mundo rouba todo mundo / ninguém sabe mais quem é ladrão / ou quem é polícia / ...  / A concorrência oficial não tá deixando pra ninguém”.

Tal como Chico Buarque, Gonzaguinha demonstrou sua capacidade de ir fundo na alma feminina, tanto no aspecto sentimental

“Por acaso algum dia você se importou / em saber se ela tinha vontade ou não / e se tinha e transou / você tenha a certeza / de que foi uma coisa maior para dois”

como diante da sociedade

            “Que uma mulher pode nunca nada, isso eu já sei / é o grito da dona moral todo dia no ouvido da gente".

TRAJETÓRIA

“No medo não tremo, não corro, / avanço, me lanço, estouro / valente, eito combato, / e ao mesmo tempo me trato / covarde na sabedoria / que ergue, cresce e se cria / só na hora boa e precisa / e corta o mal bem onde enraíza / que é pra não voltar”

Ele nasceu Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, em 22 de setembro de 1945, no Rio de Janeiro. Aos dois anos perdeu a mãe, Odaléia Guedes, tuberculosa. O pai, Luiz Gonzaga,  Rei do Baião, o entregou para ser criado pelos padrinhos, Dina e Xavier, que tocava violão nas ruas de Copacabana. Típico menino de subúrbio, o Moleque Gonzaguinha cresceu e aprendeu nas ladeiras do Morro de São Carlos, no bairro do Estácio, carregou sacolas na feira para ganhar uns trocados e contabilizou alguns acidentes, como os que o deixaram com a visão do olho esquerdo prejudicada. A convivência com a música começou em casa, com o padrinho, fortalecendo-se depois nos contatos com a ala de compositores da Escola de Samba Unidos de São Carlos.  Escreveu sua primeira composição, Lembranças da Primavera, aos 14 anos.

         Em 1961, decidido a estudar economia, foi morar com o pai, que tinha melhores condições de custear seus estudos. Dividia-se então entre os livros, o violão e o futebol. Pouco a pouco o moleque começou a dar lugar ao homem crítico, consciente, comprometido com o seu tempo.

         Com Ivan Lins, Aldir Blanc, Paulo Emilio e César Costa Filho criou o MAU-Movimento Artístico Universitário. Contratados pela TV Globo, o grupo acabou se dissolvendo devido a divergências quando da renovação do contrato. Logo vieram os problemas com a censura. A música Comportamento Geral, apresentada no programa de Flavio Cavalcanti em 1973, já demonstrava a que o compositor vinha:

         “Você deve aprender a baixar a cabeça e dizer sempre muito obrigado / São palavras que ainda te deixam dizer por ser homem bem disciplinado / Deve pois só fazer pelo bem da Nação tudo aquilo que for ordenado”

            Muitas foram suas “visitas” ao DOPS, órgão de repressão da ditadura militar. Dezenas de músicas suas foram vetadas pelos censores. Mas ele não se intimidou, soube, malandramente, driblar a censura com letras alegóricas e nos shows exprimia abertamente suas preocupações com os destinos do país.

      Em 1975 passou a trabalhar de forma independente, dispensando os empresários da música. Essa atitude foi fundamental para sua carreira e, segundo ele, recuperou a base humana do trabalho, já que dessa forma mantinha contato com diversas pessoas. E a pessoa sempre foi sua matéria-prima preferida.

      “Porque não há uma coisa ‘mais maior de grande’ do que a pessoa e porque somente juntos, somente unidos, é que nós vamos conseguir uma coisa bem maior chamada a nossa liberdade” ( 1984)

        Mas este foi também o ano em que teve tuberculose. Aproveitou o descanso forçado para repensar a vida e a carreira. Recuperado, iniciou uma série de excursões pelo Brasil e, entre outras coisas, constatou a importância de seu pai na música brasileira. Uma relação estremecida pelo distanciamento durante a infância acabou se estreitando e em 1981 os dois faziam juntos o show “Vida de Viajante”. Foram inúmeros sucessos onde a qualidade artística sempre esteve aliada à lucidez, ao senso crítico diante do mundo à sua volta.

         Com Ângela, sua primeira esposa, teve dois filhos, Daniel e Fernanda. Casou-se depois com Louise Margarete, a Lelete, e junto a ela passou os últimos doze anos de sua vida, a maior parte deles em Belo Horizonte, MG. Desse casamento nasceu Mariana.

         Apaixonado pela vida, mesmo consciente de que ela deveria ser melhor (“e será”), considerava-se um “eterno aprendiz” e pregava que é necessário “viver e não ter a vergonha de ser feliz”.

    Nos versos de “Com a perna no mundo” ele dizia para a madrinha:

         “Ô Dina

          Teu menino desceu o São Carlos

          Pegou um sonho e partiu

          ...

          Havia um fogo em seus olhos

          Um fogo de não se apagar”

          Este fogo com certeza não se apagou e nem se apagará.

Nota: Esta matéria foi publicada no jornal A Verdade em abril de 2001.

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