sexta-feira, 22 de março de 2013

NA PÁSCOA, UM CHOCOLATE ESPECIAL

Todo mundo, ou quase, sabe que aqueles que fazem alguma forma de arte, nesse nosso Brasil, têm de fazer uma verdadeira peregrinação em busca de meios para viabilizar seus projetos. 

A indústria cultural não privilegia aqueles que não se contentam em reproduzir as fórmulas de sucesso criadas e mantidas pela mídia. Sem celebridades globais, peças de teatro, filmes, literatura, têm de suar a camisa para conseguir visibilidade e recursos. E tudo o que um verdadeiro artista quer é que sua obra chegue ao público,  comunique-se com ele.

Para quem quer fazer parte desta rede de amor à arte, a nossa cultura, o ANJO DE CHOCOLATE de Clementino Jr. é uma excelente oportunidade. 

Clique sem medo de ser feliz e fazer gente feliz.

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sábado, 16 de março de 2013

Sala Escura: LINHA DE AÇÃO

 Linha de ação não é uma linha reta. É um novelo com muitas voltas e reviravoltas. Ainda que um tanto exaustivas, têm sua coerência.

O cinema americano tem exposto nas telas a banda podre da polícia, da política, dos negócios, da justiça. Como em A Negociação (Nicholas Jarecki, 2012) e mesmo na história não recente, caso de Conspiração Americana (Robert Redford, 2010).

O filme de Allen Hughes vai por este caminho, jogando com questões éticas, conflitos pessoais, culpa, passando também por preconceito, seja em questões de raça, gênero ou preferência sexual. Sobretudo, Linha de Ação fala de causa e consequência, de como o caminho escolhido hoje pode desembocar, anos depois, num lugar onde não desejaríamos estar.

O policial Billy Taggart (Mark Wahlberg) mata um jovem acusado de ter estuprado uma adolescente, num bairro de classe baixa, em Nova Iorque, Village Bolton. Ele se safa da condenação e sete anos depois tem uma agência de investigação para flagrar adúlteros e vai levando sua vidinha, ao lado da namorada latina, aspirante a atriz (Natalie Martinez).

No melhor estilo “nem tudo é o que parece”, o esperto e esquentado Taggart é contratado pelo maioral da política novaiorquina (Russel Crowe), regiamente pago, para realizar uma investigação de adultério.

Na cola da bela Catherine Zeta-Jones, a investigação tomará rumos imprevisíveis. No centro de tudo, fervilhando como um caldeirão, a campanha eleitoral para prefeito da Big Apple, eleição apimentada pela discussão sobre a desapropriação de um bairro pobre – aquele lá do começo. Melhoria para o povo ou especulação imobiliária? Preocupação social ou alta jogada de políticos com magnatas da construção civil?

(Parêntesis: A esta altura, o espectador já estará farejando semelhanças com o país que sediará grandes eventos esportivos nos próximos anos.)

Drogas, lícitas e ilícitas, podem ser o estopim para um cara que não sabe lidar com suas emoções. E há uma cidade agressiva, embalada por sirenes que soam noite e dia (como são as metrópoles, cada vez mais). Na verdade, a cidade de Nova York é personagem do filme (Broken City é o título original) e a câmera explora bem seus ângulos, como se fosse um tabuleiro de xadrez onde se movem, perigosamente, peças insuspeitas.

De fato, um dos pontos fortes do filme são os movimentos de câmera que mantêm o espectador em permanente conexão com a trama, mesmo quando o roteiro comete excessos e ainda que falte charme a este filme policial, que peca em alguns momentos pela obviedade.

Uma opinião interessante na crítica de Marcelo Hessel em:
http://omelete.uol.com.br/linha-de-acao/cinema/linha-de-acao-critica/

Trailer: http://www.imagemfilmes.com.br/imagemfilmes/principal/filme.aspx?filme=103654


LINHA DE AÇÃO (Broken City)
EUA, 2012
Direção: Allen Hughes
Roteiro: Brian Tucker
109 min, 14 anos

quinta-feira, 14 de março de 2013

DIA DA POESIA

Bem, definiram que hoje, 14 de março, é Dia Nacional da Poesia. As criaturas humanas gostam muito de datas, rótulos, nomes. O que não é de todo mau. Serve para nos lembrar do que anda esquecido, adiado, engavetado.



Mas essa boa intenção perde o sentido quando vira um modismo e aí todos têm de, naquele dia, fazer isso ou aquilo. Aliás, Ou isto ou aquilo é um belo poema de Cecília Meireles. Belo e útil, pois nos traz de volta ao chão quando estamos... digamos, viajando na maionese.

Maionese não sei se dá ou já deu poesia. Pode ser. Viajar, com certeza.

Então, mesmo que a poesia esteja por aí todos os dias, escancarada ou camuflada, inocente, doce, sensual, contundente, denunciando ou ninando, aí vai um poema escrito há alguns anos por esta tecelã, que anda precisando tecer versos com mais frequência.

POÉTICA

Há coisas que são poéticas por si só
Um trem na neblina
Um guarda-chuva aberto que encobre alguém
Um vaso com avencas
Ou samambaias



Um par de luvas femininas
Réstia de sol pela fresta da janela
Pezinhos de bebê ao sol



Boca carnuda
Dorso masculino
Nuca de mulher



Vento nas árvores
Cheiro de maresia
                 Navio ao longe


Fechando o post com o link para um dos meus preferidos do poeta português que sacudiu minha vida, quando ainda adolescente. E nunca mais me deixou.

Dá a surpresa de ser – Fernando Pessoa
http://www.citador.pt/poemas.php?op=10&refid=200809030031



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Sala Escura: INDOMÁVEL SONHADORA



 

Não apenas a pequena e talentosa Quvenzhané Wallis surpreende, como todo o filme de Benh Zeitlin foge ao lugar comum. Isso não é necessariamente um elogio, já que o longa tem lá seus tropeços, mas é sem dúvida uma abordagem audaciosa de um tema que normalmente transita entre momentos doces e momentos lacrimejantes.

A menina Hushpuppy vive numa espécie de gueto aquático, cercada de adultos que temperam com muito álcool seu discurso ambientalista e anti-consumismo. Tal como as marolas do alagado onde vivem – conhecido como a “Banheira” - os personagens oscilam entre homéricas bebedeiras e a defesa de um estilo de vida, digamos, natural, uma volta do homem ao estado primitivo, longe da comida pronta dos supermercados.

A sutileza da relação da garota com os bichos – escutando seu coração e reconhecendo-se também como um animal – choca-se com o ambiente onde vive, onde reina o caos e a imundície. Sim, este não é um filme para estômagos delicados. Gera um desconforto que por vezes até dificulta manter os olhos na tela.

Hushpuppy não tem poucas adversidades a enfrentar: além do derretimento das calotas polares, há o pai doente e alcoólatra (Dwight Henry), a ausência da mãe, a necessidade de ser adulta antes do tempo, num mundo onde não há lugar para sentimentalismos nem lágrimas. Uma dureza aparente, como uma couraça, para suportar os golpes da vida e se defender inclusive de si própria.



Indomável Sonhadora, em diferentes momentos, lembrou-me, Distrito 9 (Neill Blomkamp, 2009), com seus seres fantásticos, sua favela e as manobras para desocupação, e A árvore da vida (Terrence Malick, 2011), por enveredar numa espiral onde homem e natureza se entrelaçam.

Sem trocadilhos, o jovem diretor poderia ter feito um filme mais enxuto, com menos câmera na mão e roteiro mais redondo, mas sem dúvida é um filme que se destaca na recente produção norte-americana.


INDOMÁVEL SONHADORA (Beasts of the Southern Wild)

EUA, 2012, 93 min

Direção: Benh Zeittin

Roteiro: Lucy Alibar, Benh Zeitlin (baseado na peça Juicy and Delicious, de Alibar)




Links relacionados:
http://criticos.com.br/?p=3406&cat=1

sábado, 19 de janeiro de 2013

Sala Escura: PARIS-MANHATTAN




SÓ WOODY ALLEN SALVA
  
Fui assistir a Paris-Manhattan com o maior entusiasmo. Com uma personagem que adora cinema e, mais ainda, o cinema de Woody Allen, só podia ser uma história muito interessante. E é. O problema é o modo como esta interessante história é contada: uma estrada cheia de buracos. Sacode pra cá, sacode pra lá, e a gente não tem um ritmo que garanta uma satisfatória fruição do filme. Temos apenas pedaços.

Os momentos fofos, simpáticos devem-se especialmente ao ótimo Patrick Bruel, como Victor, um especialista em segurança e potencial amor de Alice (Alice Taglioni) e ao pai da moça (Michel Aumont), em seu afã para conseguir um marido para a filha. A farmacêutica Alice não pensa em se casar, mas tem um relacionamento, que nunca fica muito claro, o sujeito aparece e some sem dizer a que veio. Para uma fã dos filmes de Allen, há uma boa dose de contradição nessa moça que parece não acreditar nas relações amorosas. Na verdade, a personagem não é bem construída, por mais que deva nos aparecer como alguém descomplicado: uma menina mimada, que não quer crescer, como tantas por aí

Há ótimas situações que são mal aproveitadas, como as “prescrições” de filmes do diretor norte-americano para os clientes de sua farmácia. Falta à atriz – ou à direção – mais expressividade. E, sobre a relação de Alice com o pôster de Allen, agarrado à parede de seu quarto, temos um parâmetro bem apropriado no filme À procura de Eric, de Ken Loach (no filme de Loach, o objeto de adoração do fracassado Eric é seu xará,  o jogador de futebol Eric Cantona, ídolo do Manchester United,, nos anos 1990). Tudo bem, ser Ken Loach não é para qualquer um e Sophie Lellouche é uma estreante em longas (não há na rede muitas informações sobre sua biografia).

Bem, antes que me joguem ovos podres virtuais – algumas amigas amaram o filme – devo dizer que ele até vale a pena, exatamente pelos momentos em que consegue passar alguma graça e frescor. As sequências finais, por exemplo, são um respiro no marasmo de quase a totalidade da película. E tem Woody Allen, a pitada salvadora. Sem ele, talvez Sophie Lellouche continuasse a ser uma ilustre desconhecida entre nós.

Uma palavra que anotei no meu bloquinho, no escuro da sala de cinema (garranchos a serem decifrados depois), foi “vacilante”. Lendo a crítica de Susana Schild, na revista RioShow, de O Globo, vejo que ela usa o mesmo adjetivo. Ele, a meu ver, define bem o filme de Lellouche. Vacila, não engrena. Cai bem numa sessão da tarde sonolenta, embalando, entre uma espiada e outra à TV, um cochilo no sofá.



PARIS-MANHATTAN (Paris-Manhattan)
Direção e roteiro: Sophie Lellouche
França, 2012, 77 min