sábado, 1 de setembro de 2012

NOVAS TELAS, NOVOS OLHARES: da Baixada Fluminense ao Nordeste



Em março fiz a defesa de minha dissertação de Mestrado em Comunicação Social, com o título Novas telas, novos olhares: audiovisual e inclusão subjetiva na Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu. A proposta era pesquisar como o acesso a bens e atividades culturais, especialmente os mediados pelo cinema/audiovisual, pode contribuir para o autoconhecimento, a relação com o outro, a construção de subjetividade, atuando ainda para reverter processos de exclusão, promover cidadania e o consequente posicionamento crítico do indivíduo na sociedade. O trabalho incluiu uma pesquisa de campo na Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Dois meses antes, havia publicado aqui um texto com o título de O cinema rompendo grades, sobre a experiência do Preciso (Programa Exibição de Cinema Social) numa unidade prisional da grande Recife, o CREED (Centro de Reducação da Polícia Militar). Naquela ocasião, os responsáveis pelo projeto buscavam autorização e apoio para realizar o Carnaval no Cárcere, uma mostra de curtas metragens que percorreria os presídios do Estado durante os dias de Carnaval. A autorização não foi concedida e a mostra não aconteceu.
 
Mas o pessoal não desanimou, tanto que este ano duas mostras acontecerão, organizadas pelo Preciso: a mostra competitiva I Cine Santa Clara  e o IV CineCreed. A primeira conta com o apoio da empresa de águas minerais Santa Clara e a segunda é mais uma edição da mostra que o CREED realiza anualmente. Ambas receberam inúmeras inscrições de realizadores de todo o país.

Em julho, arrumei as malas para uma curta viagem de lazer e pesquisa. Após uns dias de descanso em Porto de Galinhas, o roteiro apontou para Recife e Abreu e Lima, onde se localiza do CREED, distante cerca de 40min da capital pernambucana. Fui conhecer de perto aquele projeto corajoso e mesmo ousado, como gosta de definir seu idealizador, o Capitão Francisco Pires. Além do Capitão, fui recebida com extrema simpatia pelo diretor daquela unidade, o Major Chicó, e por todos que encontrei por lá.

Convidada a falar para os reeducandos sobre cinema e sua capacidade de mobilizar corações e mentes, me vi diante de uma plateia composta por cerca de 60 homens, de idades e perfis variados, e igualmente com diferente interesse e informação acerca do assunto. Uma experiência nova, e como tudo que é desconhecido, gerando em mim ansiedade, curiosidade e um tanto de insegurança.

A receptividade deles é tocante. Como ficam na expectativa acerca do que as pessoas lá de fora podem levar de novo para eles! Somos “o mundo” que vai até lá, já que estão privados de liberdade temporariamente. Uma frase que ouvi mais de uma vez foi: “A senhora vem de tão longe, do sudeste para nos conhecer...”, num misto de curiosidade e desconfiança.

Mostraram-se também ansiosos por saber o que podemos trocar com eles e como podemos divulgar as atividades que vêm desenvolvendo naquele pequeno universo, cercado por muros, mas aberto ao conhecimento.

Algumas perguntas e comentários que fizeram foram bastante interessantes, como: “O cinema brasileiro tem muita violência e sexo, deveria mostrar nossas coisas boas.” Ou “Deveríamos só fazer filmes baseados em fatos reais, como Carandiru.” E “Que diretores a senhora considera importantes?”.

Depois desta experiência gratificante, fui “intimada” a voltar para o IV Cinecreed, que acontecerá em novembro. Saí de lá emocionada, feliz por compartilhar um pouco do que tenho estudado e, principalmente, por sentir novos e promissores ares soprando em lugares sempre identificados com repressão, violência, limitações de toda espécie. São novas telas, a céu aberto, escoradas em muros; são novos olhares, prontos para receber, processar e devolver à sociedade as indagações, os sentimentos, as reflexões que o cinema, há mais de cem anos, vem provocando.



Foto 1: Preparativos para o I CineCreed (site do Preciso)
Foto 2 (a partir da esquerda): Carlos Junior, Puccini, Capitão Pires, Teobaldo e Douglas.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Sala Escura: UM DIVÃ PARA DOIS


SEM VERGONHA DE SER FELIZ

Este título pode se aplicar tanto ao filme propriamente, já que trata de um casal em busca de um up-grade na vida a dois, como ao espectador. Porque, mesmo sendo uma comédia norteamericana típica, daquelas que saem aos montes, como pãezinhos do forno da padaria, o filme de David Frankel tem o mérito de não duvidar da inteligência do público.

Kay ((Meryl Streep) e Arnold (Tommy Lee Jones) remam seu barquinho em águas mansas... e de puro tédio. Seguem uma rotina aparentemente imutável, pré-determinada desde os primórdios da civilização ocidental. E essa mesmice pode ser explicada – e aceita pacificamente - como consequencia natural de uma união de 31 anos. Casamento é assim mesmo...

Mas mulher é um bichinho teimoso e Kay resolve dar uma sacudida naquela vida sem emoções, previsível, assexuada. Não sem ouvir muitas reclamações, arrasta Arnold para uma semana de terapia numa pequena cidade a quilômetros de distância.

Ao ler a sinopse e o nome de Steve Carrel no elenco, no papel do psicanalista, bateu um friozinho na barriga, receando uma atuação exagerada, que apelasse para o humor fácil. Mas Carrel está no tom certo, entre seriedade e comicidade, como a própria situação do casal que vai em busca de ajuda e transita entre dialogar e lavar a roupa suja durante a consulta, expondo sua intimidade, seus medos e seus desejos inconfessáveis.

Fritar ovos com bacon para o maridão todo dia, como naquela velha música do Chico “Todo dia ela faz tudo sempre igual...”, pode não ser uma desgraça total se houver outros temperos na rotina. Até dá para aturar os chatissimos programas de TV sobre golfe, se rola um chamego depois.

Lições que se pode levar dessa comédia leve, mas não boba, é que sempre é bom duvidar das fórmulas prontas. E desejar, procurar, manter acesa a esperança (hope). E é possível adaptar as receitas, sejam de um especialista ou de um livro de auto-ajuda, à sua própria realidade, permitindo assim que novas janelas e caminhos se abram, sem deixar, contudo, de ser quem se é.

Meryl Streep e Tommy Lee Jones estão perfeitos, como sempre. Com todo respeito à ótima atriz que é Lilia Cabral, o divã deles é mais criativo do que o nosso.

UM DIVÃ PARA DOIS (Hope springs)
David Frankel, EUA, 2012, 100min

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Sala Escura: AQUI É MEU LUGAR


Como falar de Aqui é meu lugar sem cometer injustiças? É um belo filme? Sim. É um filme aborrecido? Também. O que não decepciona por um momento sequer é a música, da melhor qualidade, todo louvor aos Talking Heads.

Sean Penn é um roqueiro já meio vetusto, descabelado, maquiado, um tanto trôpego e aparentemente sem noção, que carrega o sugestivo nome de Cheyenne. Ao contrário do que podem sugerir as muitas camadas de rímel e batom, ele é casado e quem dá vida à sua doce esposa é Frances McDormand (queridinha dos irmãos Coen).

Após anos radicado na Irlanda, Cheyenne tem de voltar aos EUA por conta da morte iminente de seu pai. Segue-se aí uma viagem geográfica e interior que revelará uma coletânea de tipos característicos da América, bem como insuspeitas facetas da personalidade do ex-roqueiro.

Muito ao gosto do cinema norteamericano, a situação deflagrada pela morte de um membro da família trará à tona questões delicadas do relacionamento familiar. Neste filme de Paolo Sorrentino, Cheyenne descobre que seu pai passara boa parte da vida buscando vingança contra um nazista com quem convivera num campo de concentração durante a 2ª Guerra.

O que vemos – com algumas redundâncias do roteiro que esticam o filme sem preencher os minutos em excesso com situações sedutoras e/ou provocativas – é um homem que vai deixando cair a casca de menino, saindo de um personagem que criou para proteger a si mesmo de um mundo que pode ser decepcionante e assustador.


AQUI É MEU LUGAR
(This must be the place)
Paolo Sorrentino, (França/Itália/Irlanda, 2011, 118min)

Imagem Filmes:

AGENDA - ALGUMAS DICAS PARA AGOSTO



O time de futebol não vive seus melhores dias, mas o bairro do FLAMENGO está a todo vapor na área cultural.

 A Estação das Letras, por exemplo, oferece, além de cursos variados (que a Tecelã recomenda), alguns encontros muito interessantes, com entrada franca. No próximo sábado (11) acontece uma homenagem à escritora Clarice Lispector e no  dia 25 o encontro é com Elias Fajardo: 

 11/08 – 17h - SARAU DE CLARICE - 14 atores profissionais encenarão monólogos retirados das crônicas de A Descoberta do Mundo e fragmentos do romance Perto do Coração Selvagem, com direção de Delson Antunes


 25/08 – 14h30 – LIVROS NA MESA - Encontro informal em que a troca de livros e de ideias é a tônica. 
Às 15h começa o ENCONTRO DE LEITURASer tão menino, de Elias Fajardo, com leitura de trechos romance e comentários do autor.

Estação das Letras - Rua Marquês de Abrantes, 177 – Lojas 107/108 – Flamengo
 Você pode conferir toda a programação no link:

 
  
E no Parque do Flamengo continua a exposição ANIMA MUNDI, 20 anos, no Monumento a Estácio de Sá.  

Até o dia 19/08
Av. Infante Dom Henrique, s/no. 
Diariamente de 11h às 20h
Entrada Franca.


segunda-feira, 9 de julho de 2012

RECEITA DE SUCESSO



Muitas são as receitas de sucesso que vemos hoje na mídia. Fórmulas mágicas que garantem felicidade, elevada autoestima, reconhecimento público, status social, blá...blá...blá...

O que comer, o que vestir, aonde ir, o que falar, tal como já observava o sempre antenado Gilberto Gil, na sua bela música. Que carro, celular, computador comprar. O objeto de desejo hoje, amanhã é apenas um estorvo, algo inútil ou que não nos satisfaz mais.

Botox, lipo, silicone, malhação diária... Ansiedade, depressão.

Aí, leio num cantinho de jornal esta RECEITA DE SUCESSO de um poeta que eu não conhecia. Há duzentos anos ele já sabia das coisas. Talvez porque estas coisas de que ele nos fala não pertencem a esse ou àquele tempo. São eternas. E universais.

 “Rir sempre e muito
Conquistar o respeito das pessoas inteligentes e a afeição das crianças
Ganhar a atenção dos críticos honestos e suportar a traição dos falsos amigos
Atentar para a beleza
Encontrar o melhor de cada um
Deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma criança saudável ou um pequeno jardim.
Saber que ao menos uma vida respirou melhor porque você existiu. Isso é o sucesso.”

Ralph Waldo Emerson (1803 – 1882) - escritor, filósofo e poeta norteamericano