sábado, 11 de março de 2017

CRENÇAS E A CORAGEM DO DESAPEGO



Este texto me veio à lembrança quando escrevia sobre o filme Silêncio (Martin Scorsese, 2016) para o Kinoglaz.  Procurando na web o texto original em inglês (não encontrei), acabei pesquisando um pouco sobre o autor, de quem nada sabia. Uma biografia muito interessante, inclusive com um suposto duplo suicídio.

Judeu húngaro radicado na Inglaterra, Arthur Koestler (1905-1983) foi jornalista e romancista, tendo se filiado ao Partido Comunista Alemão por um período. Conhecendo um pouquinho de sua história de vida, penso que talvez este texto reflita sua própria experiência, suas expectativas diante do socialismo e frustração com os rumos tomados pelo regime soviético, sob o stalinismo.

Ideologias à parte, um texto interessante que, por algum motivo, nunca esqueci, ainda que o tenha trabalhado há quase 15 anos no curso de Tradutor e Intérpretes de Daniel Brilhante.

Esta é a tradução que fiz na ocasião.

A PERDA DE UMA CRENÇA
Arthur Koestler

A entrada de uma crença na vida é um acontecimento aparentemente espontâneo, como uma borboleta eclodindo de seu casulo. Mas o fenecer da crença é lento e gradual; mesmo após o que parece ser o último adejar das asas cansadas, há ainda uma débil convulsão. Toda crença verdadeira mostra esta obstinada recusa em morrer, seja seu objeto uma religião, uma causa, um amigo ou uma mulher.

O natural horror ao que é vão aplica-se também à esfera espiritual. Para fugir do vazio ameaçador, o verdadeiro crente não hesita em negar as evidências de seus sentidos, em desculpar qualquer decepção, tal como um marido traído dos contos de Boccaccio. E se a ilusão não pode mais ser preservada em sua integridade original, ele irá adaptar e modificar sua forma ou tentará salvar pelo menos parte dela.

quarta-feira, 8 de março de 2017

MULHER, DUPLO X



“Você tem problema de horário?” (tradução: você pode ficar até mais tarde quando eu quiser?)

“Você pretende ter filhos?” (tradução: não interessa à empresa pagar por licença maternidade)

“Posso tomar um cafezinho na sua casa?” (auto-explicativo)

“Eu pago do meu bolso a diferença do salário que você pretende”. (tradução: você deixa eu te usar)

“Você foi promovida, criaremos um novo cargo para encaixá-la.” (tradução: você faz o trabalho que outros homens fazem, mas não vou lhe pagar um salário igual ao deles)

Pérolas que eu ouvia (e certamente muitas outras mulheres) desde adolescente em algumas entrevistas de emprego ou durante o período em que trabalhei em várias empresas – muitas grandes, brasileiras e estrangeiras, entre elas algumas hoje citadas na Lava Jato.

Todo seu desempenho nos muitos testes de seleção ou no dia a dia perdia em importância para sua “disponibilidade”.  Parece que não mudou muito dos anos 70/80/90 para cá. Violências sutis, outras nem tanto, assédio moral, sexual. Preconceito, exploração, menosprezo.

Encarei todos eles sem negociar, sem baixar a cabeça, sem perder o rebolado e sem descer do salto. Respondi na lata! Mesmo precisando muito do emprego. Mesmo sangrando por dentro, de raiva, medo e tristeza. A única saída era seguir estudando, trabalhando com competência e seriedade, sem aceitar “gentilezas”. Como hoje, não existe “almoço grátis”. O caminho foi mais difícil, sem dúvida, mas não faria absolutamente nada diferente. 
Malala Yousafzai  
 Não recue, mulherada. Sabemos o quanto para algumas é uma questão de passar fome ou não, de alimentar os filhos ou não, de sobreviver ou não. Mas, mesmo que não haja saída, tentem não desistir. É uma longa e dura jornada. Para muitas, especialmente as das favelas e periferias, as que labutam nas lavouras, historicamente em desvantagem, praticamente impossível. Mas a pequena Malala nos serve de exemplo, com sua determinação, apesar de tanta dor, física e moral.


Mantenham acesa a chama da justiça, ainda que por um tempo estejam de cabeça baixa. Se nenhuma se submete, os que oprimem – na casa, no trabalho, na rua - terão de mudar. E eduquem seus meninos, com amor e firmeza. Para que sejam homens e não machos.

Nesse dia e em todos os outros do ano, a palavra que importa e que sempre ensinei à minha filha ter em mente é: Respeito! Pelo outro, do outro e por si própria.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

CATAGUASES, DE MEU PAI E HUMBERTO MAURO


Ponte sobre o Rio Pomba
Embarquei rumo a Cataguases, nas Minas Gerais, movida por dois amores: por meu pai, nascido lá há quase 100 anos, e pelo cinema. Meu pai, na verdade, cresceu na vizinha Leopoldina e, ainda bem jovem, veio para o Rio. Eu não tinha referência alguma para rastrear as origens do seu Wilson (os velhinhos vão partindo e com eles as memórias...), mas queria estar naquela cidade, imaginar como teria sido sua passagem por ali nos primeiros anos de vida.



Vinte anos antes de meu pai, nascia Humberto Mauro (1897-1983), um gênio do cinema. Merecia todas as homenagens e poderia ser um grande atrativo para a cidade se os gestores públicos enxergassem o valor da história, do patrimônio, da cultura para o turismo. E o valor do turismo para a economia de um município, gerando empregos, estimulando artesãos e empresários, turbinando negócios. Foi em Cataguases que Humberto Mauro realizou seus filmes com extrema paixão e criatividade nas primeiras décadas do século XX.



Para minha decepção e tristeza, encontrei uma cidade maltratada, como muitas outras por onde já passei nas minhas andanças por esse Brasil (e o Rio de Janeiro não está fora disso, apesar das obras olímpicas). Apurei, nas minhas conversas aqui e ali, que o prefeito havia perdido a reeleição e por isso a cidade estava tão abandonada. Na verdade, me pareceu que a coisa vem de mais tempo. Seguindo pelo calçadão rumo à antiga estação de trem, o que encontro é quase caos, muito lixo, trânsito desordenado, carros ocupando o lugar de pessoas. Gente que parece estar desamparada, sem trabalho, alguns pedem dinheiro. A poeira aumenta ainda mais o calor que é forte na região. Triste.



Um antigo vagão de trem na praça da estação é um ponto de venda de artesanato, mas, devido a seu mau estado, as peças expostas são frequentemente danificadas pela chuva que entra pelo teto, me contou uma artesã. Tão pouco seria preciso para ajudar a essa gente a ganhar dignamente seu sustento com suas artes...

Na Praça Rui Barbosa, o histórico cine Edgard está fechado e em péssimo estado. O prédio abriga um curso preparatório. Aos sábados, há na praça uma pequena feira de artesanato, não havia muito movimento por ali. Uma das artesãs, com quem conversei mais demoradamente, preserva a memória da cidade em panos de copa com bordados que retratam pontos característicos, como a ponte de ferro e o santuário de Santa Rita. Ela, e outras pessoas também, me contou que peças históricas que havia na cidade desapareceram “misteriosamente”. Devem estar decorando a casa de alguma “autoridade”.


Outra bela construção, a Fiação e Tecelagem Cataguases, virou o Bahamas Shopping, onde funciona também um supermercado. 


A área nas imediações do Hotel Cataguases, na Rua Major Vieira, onde me hospedei, até que está cuidada. Há uma bonita praça e o belo santuário de Santa Rita, que ostenta um precioso mural de Djanira na fachada. A ponte de ferro sobre o Rio Pomba fica a poucos metros.




Paço Municipal

Santuário de Santa Rita



Além de Humberto Mauro, outro atrativo de Cataguases é a arquitetura modernista. Disseram-me que a cidade recebe estudantes de Arquitetura com frequência. Enquanto escrevia este artigo, encontrei um site sobre o  CATS 2016, um encontro de Arquitetura, Turismo e Sustentabilidade, realizado na cidade dois meses antes de minha visita. Que renda bons frutos!

O Hotel Cataguases denota que já teve um passado mais feliz. Hoje, os sinais de decadência são evidentes, ainda que guarde o charme dos anos 1950 (a obra foi concluída em 1951) e a beleza sinuosa dos traços que caracterizam a arquitetura da época. Os funcionários se esforçam para manter o padrão de melhor hotel da cidade.


 
 




Há vários outros prédios de interesse arquitetônico, histórico e artístico na cidade, como o Colégio Cataguases, o Museu da Eletricidade, a casa de Francisco Inácio Peixoto (projeto de Oscar Niemeyer), a residência Nanzita Salgado, sobre os quais não consegui informações claras sobre localização e horário de visita. Alguns fecham nos fins de semana. O que apurei, pesquisando para esta matéria, foi em sites e blogs.



Nas duas noites que passei na cidade, fui a dois bares diferentes para comer (o Hotel não serve refeições). Havia bastante gente e música ao vivo, música boa. Aliás, o mesmo músico se apresentava, na sexta na Pizzaria D’Angelo (Av. Astolfo Dutra) e sábado no Confrarias, um bar de estilo roqueiro e com pôster do Che, na mesma rua do Hotel. Encontrei o jeito acolhedor do mineiro em ambos e a comida também valeu a pena. Almocei no Girassol, pertinho do Cine Edgard, uma comidinha a quilo honesta, ainda que sem muitas opções. Todos indicação do Dênis, amável recepcionista do Hotel.

No meio da agitação e poluição visual da Rua Coronel Vieira, quase escondido, fica o Centro Cultural Humberto Mauro. Por sorte passei por lá na sexta-feira à tarde, pois não teria conseguido visitá-lo no sábado, como pretendia. O espaço não abre nos fins de semana. O segurança, muito solícito, parecia estar feliz por receber uma visitante, imagino que coisa rara por lá. 





Apesar de algumas decepções, fiquei feliz por ter cumprido esta “missão”. Não sei se voltarei a Cataguases um dia... talvez. E seria maravilhoso encontrar uma cidade acolhedora, limpa, com mais acesso ao acervo e à história de Humberto Mauro. Seu Wilson gostaria, tenho certeza.


Mais sobre Humberto Mauro e sua presença em Cataguases aqui.