domingo, 25 de setembro de 2016

CRÔNICAS PERUANAS (7) – LAGO TITIKAKA (parte II) - TAQUILE E O RETORNO




A Isla Taquile é Patrimônio Cultural pela Unesco desde 2005. Na ilha vive uma população que mantém tradições de séculos. São hábeis artesãos e, ao contrário de Pablo, não interagem tanto com os turistas. São sorridentes, mas muito discretos e não se pode tirar fotos dos moradores sem autorização (a guia diz que cobram 1 Sol por cada).

 


 












 

Em Taquile não tem chão fofo de totora e sim uma subida nada fácil para pulmões acostumados a respirar ao nível do mar. Último passeio da viagem, não ia deixar aquele desafio me vencer. E nosso almoço estava lá em cima. 




Invocando aquela coragem de Olamtaytambo, mais a energia de Inti/Machu Picchu, vamos nós, um trecho pela rampa, depois numa trilha pelo morro. Para reforçar o fôlego, Janete colhe e nos oferece alguns galhinhos de muña, o “oxigênio natural”, para cheirarmos (meu raminho está cheiroso até hoje, dentro do meu caderno de viagem). 






Nossa mesa estava preparada sob uma tenda meio improvisada, mas com uma vista digna dos deuses quem vai se importar com esses detalhes? A esta altura até fazia um pouco de calor. Quem não se animou a subir, não ficou sem almoço (levam uma marmitinha no barco), mas perdeu a paisagem vista do alto. 


Aprendemos um pouco dos costumes do povo de Taquile – como o jeito de usar o gorro, que varia de acordo com sexo, idade, estado civil – e, com música ao vivo, atacamos o almoço: sopa de quinua e trucha con papa. Delícia!!

 


 Agora, descer e dizer adeus a Taquile.


 
  
Como nos havíamos distanciado bastante de Puno, a volta foi mais demorada. Invejando os companheiros que aproveitaram a viagem de retorno para dormir, me restou curtir a paisagem magnífica do Lago.



Adeus a Los Uros


 
Ao longe, já se vê Puno.


Com os argentinos Cecilia e Daniel, desci da van no centro de Puno. Anoitecia e a essa altura o frio já era congelante. Demos algumas voltas, fizemos umas comprinhas, dividimos uma pizza. Tomamos um taxi para o Sonesta, um carro caidinho, mas convencional. Eu bem que queria ter ido num tuk-tuk.


Para encerrar a noite, a triste e árdua tarefa de fazer a mala. E, o pior da história, ela seria despachada de Juliaca para o Rio, onde eu só chegaria cerca de 24 horas depois. Acomodei na mochila o que poderia precisar para sobreviver por quase 12 horas no aeroporto de Lima.



Mal dormi e já era hora de levantar. Com o restaurante do hotel às escuras, pedi socorro na recepção. Esperei o sonolento funcionário preparar um café, engoli o que deu e disse adeus ao torito de Pukará com quem eu dividira o quarto por duas noites.
Estrada Puno-Juliaca




Sabe a mala? O pior, pior ainda da história, é que no aeroporto de Juliaca não tem aparelho de raios X, ou seja, o policial pede pra você abrir a mala e dá aquela fuçada... mas até que ele foi muito educado, pediu para abrir as nécessaires, não fez muito estrago na arrumação que tanto me custara fazer. Despedi-me dela com uma ponta de desconfiança de que fosse seguir outros rumos, no porão de outras aeronaves, e não nos encontraríamos no Brasil.



A espera para embarcar, que para mim é sempre sofrida, me pareceu mais longa por causa do sono, da expectativa de outra espera ainda mais longa em Lima e da saudade que já começava a bater daquela terra e daquela gente, nossos hermanos peruanos, mestiços de outros povos que os antecederam nos Andes.



Em Lima/Callao até cogitei sair do aeroporto, já que ainda não haviam carimbado meu passaporte e o voo para o Rio era só às 21h30. Mas, olhando a vizinhança nada atraente, desisti. Me conformei em passar o resto do dia ali, me sentindo um pouco como o Tom Hanks naquele filme, O Terminal. 

O aeroporto diz que tem wifi, mas a gente não consegue conexão. Fiz um lanche num café e pude me conectar com o mundo por algum tempo. Comi, andei, usei o banheiro, almocei empanadas, experimentei a Chicha Morada (da industrializada não gostei, pode ser que a natural seja melhor), comprei umas cositas.

Conversei com uns jovens brasileiros que acabavam de chegar ao Peru, olhinhos brilhantes, puro entusiasmo. Uma das moças, arquiteta, ficaria 40 dias em Cusco, como voluntária num projeto social. O rapaz ia fazer a trilha de Wayna Picchu e seguiria depois para a Bolívia.


Passei boa parte do tempo na capela do aeroporto. Várias pessoas passavam por ali, para rezar ou apenas em busca de um lugar para sentar ou carregar o celular. Lá encontrei esta imagem e esta oração. Um encontro que me fez bem.

 

















Já na sala de embarque (onde tive de comprar um adaptador por 19 dólares, pois as tomadas do aeroporto são estranhíssimas. E falam das nossas de 3 pinos...) conheci um rapaz mexicano que vinha pela primeira vez ao Brasil e muito se admirou por eu viajar sozinha. Quantas histórias circulam pelos aeroportos do mundo!

E fiquei observando e pensando nas centenas de pessoas que trabalham nos aeroportos. Limpam, e limpam... Será que desejam ir a outros lugares? Quantas línguas diferentes ouvem todos os dias? Quantos passam por eles sem sequer um bom dia, buenos días, good morning...

Um casal que me sorria tirou-me de minhas divagações filosóficas. Sem noção que sou para reconhecer as pessoas, fiquei com aquela cara, imaginando de onde os conhecia. Eram aqueles brasileiros que viajaram comigo do Rio para Lima. Estavam felizes. Bom ver a alegria deles. 

Cheguei ao Rio de madrugada, ainda que com duas horas a mais no fuso horário, mortinha de cansada, mas com sensação boa de missão cumprida. E, oh! alegria!, vi chegar a mala que despachara na madrugada anterior, em Juliaca, um tanto esfolada, deslizando na esteira.