sábado, 8 de abril de 2017

CAMPOS DE GUERRA X CAMPOS DE JOGO

Partida de futebol entre pilotos soviéticos e britânicos, no Ártico (1942).              


Tempos atrás, rata de mostras e festivais de cinema, frequentadora fiel do extinto Cinesul (creio que a última edição foi em 2013), assisti a Meu melhor inimigo, uma co-produção de Chile e Argentina, de 2005, dirigida por Alex Bowen.

 

Argentinos e chilenos andaram prestes a guerrear nos anos 1970, época de ditaduras sombrias na porção sul das Américas.  Na trama, uma patrulha chilena é enviada a uma região fronteiriça, ao sul do país, onde supostamente deveria ficar de prontidão para um possível combate. Como a guerra carrega em si tanto o horror quanto o absurdo, os soldados não identificam onde fica a tal fronteira que devem vigiar e tropeçam num destacamento argentino que está na mesma situação. 

 

 


Perdidos na imensidão dos pampas, sem apoio e informação, os potenciais combatentes vão pouco a pouco deixando de ser soldados para serem apenas homens.  Vivendo uma situação que seria cômica, não fosse a guerra algo trágico, a certa altura, entediados daquele marasmo, dão uma trégua na vigilância e iniciam uma partida de futebol, ou melhor, uma autêntica pelada. É comovente.

 

Fora da ficção, o futebol já foi o cessar-fogo que calou canhões e fuzis, ainda que por pouco tempo, em diferentes épocas e países (veja matéria aqui). Um exemplo tocante é o da Costa do Marfim, terra de Didier Drogba. Sua história é narrada por Eric Cantona no filme Os Rebeldes do Futebol (que a ratinha de cinema aqui assistiu no genial CINEfoot).

 

De vez em quando me lembro daquele filme de 2005, mas hoje especialmente, ao ver a foto da Segunda Guerra que abre este texto. Ela está numa matéria da Gazeta Russa sobre uma exposição em homenagem ao centenário do fotojornalista Evguêni Khaldei (1917-1997).


Essa imagem me comoveu profundamente. Não apenas porque imagens e filmes de guerra sempre me arrastam àqueles lugares da alma onde vivem tristeza, revolta, desesperança, desejo de entender, mas pelo que há meses vemos nas telas da TV, particularmente esta semana. Bombas para combater bombas, ataques para cessar ataques, mortes para impedir mortes.

Não tenho a ilusão de que há mocinhos e bandidos, embora sempre haja aquele que, pela arrogância, desprezo total pelo outro e vaidade extrema, ultrapassa a linha do aceitável numa guerra (considerando que há algo aceitável numa guerra e mesmo os conflitos armados têm sua ética). A História tem vários exemplos. E se repetem.

Há poucos meses, falava aqui sobre o “contra” que virou “com” no tristíssimo episódio com a equipe de futebol da Chapecoense. Pode ser uma utopia, mas seria lindo ver campos de guerra transformados em campos de jogo, civis mortos em torcida cantando, prédios destruídos em estádios seguros, jovens despedaçados por bombas em atletas saudáveis, levando a bola com alegria, elegância e fairplay.

Fontes:
- Fotos de

- Sobre o filme: Meu melhor inimigo (Mi Mejor Enemigo), de Alex Bowen, Chile/Argentina, 2005. A produção ganhou vários prêmios, entre eles o de melhor roteiro (Paula del Fierro
Julio Rojas)
no Festival de Cartagena de 2006. Ver:  http://www.imdb.com/title/tt0410316/

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sábado, 11 de março de 2017

CRENÇAS E A CORAGEM DO DESAPEGO



Este texto me veio à lembrança quando escrevia sobre o filme Silêncio (Martin Scorsese, 2016) para o Kinoglaz.  Procurando na web o texto original em inglês (não encontrei), acabei pesquisando um pouco sobre o autor, de quem nada sabia. Uma biografia muito interessante, inclusive com um suposto duplo suicídio.

Judeu húngaro radicado na Inglaterra, Arthur Koestler (1905-1983) foi jornalista e romancista, tendo se filiado ao Partido Comunista Alemão por um período. Conhecendo um pouquinho de sua história de vida, penso que talvez este texto reflita sua própria experiência, suas expectativas diante do socialismo e frustração com os rumos tomados pelo regime soviético, sob o stalinismo.

Ideologias à parte, um texto interessante que, por algum motivo, nunca esqueci, ainda que o tenha trabalhado há quase 15 anos no curso de Tradutor e Intérpretes de Daniel Brilhante.

Esta é a tradução que fiz na ocasião.

A PERDA DE UMA CRENÇA
Arthur Koestler

A entrada de uma crença na vida é um acontecimento aparentemente espontâneo, como uma borboleta eclodindo de seu casulo. Mas o fenecer da crença é lento e gradual; mesmo após o que parece ser o último adejar das asas cansadas, há ainda uma débil convulsão. Toda crença verdadeira mostra esta obstinada recusa em morrer, seja seu objeto uma religião, uma causa, um amigo ou uma mulher.

O natural horror ao que é vão aplica-se também à esfera espiritual. Para fugir do vazio ameaçador, o verdadeiro crente não hesita em negar as evidências de seus sentidos, em desculpar qualquer decepção, tal como um marido traído dos contos de Boccaccio. E se a ilusão não pode mais ser preservada em sua integridade original, ele irá adaptar e modificar sua forma ou tentará salvar pelo menos parte dela.

quarta-feira, 8 de março de 2017

MULHER, DUPLO X



“Você tem problema de horário?” (tradução: você pode ficar até mais tarde quando eu quiser?)

“Você pretende ter filhos?” (tradução: não interessa à empresa pagar por licença maternidade)

“Posso tomar um cafezinho na sua casa?” (auto-explicativo)

“Eu pago do meu bolso a diferença do salário que você pretende”. (tradução: você deixa eu te usar)

“Você foi promovida, criaremos um novo cargo para encaixá-la.” (tradução: você faz o trabalho que outros homens fazem, mas não vou lhe pagar um salário igual ao deles)

Pérolas que eu ouvia (e certamente muitas outras mulheres) desde adolescente em algumas entrevistas de emprego ou durante o período em que trabalhei em várias empresas – muitas grandes, brasileiras e estrangeiras, entre elas algumas hoje citadas na Lava Jato.

Todo seu desempenho nos muitos testes de seleção ou no dia a dia perdia em importância para sua “disponibilidade”.  Parece que não mudou muito dos anos 70/80/90 para cá. Violências sutis, outras nem tanto, assédio moral, sexual. Preconceito, exploração, menosprezo.

Encarei todos eles sem negociar, sem baixar a cabeça, sem perder o rebolado e sem descer do salto. Respondi na lata! Mesmo precisando muito do emprego. Mesmo sangrando por dentro, de raiva, medo e tristeza. A única saída era seguir estudando, trabalhando com competência e seriedade, sem aceitar “gentilezas”. Como hoje, não existe “almoço grátis”. O caminho foi mais difícil, sem dúvida, mas não faria absolutamente nada diferente. 
Malala Yousafzai  
 Não recue, mulherada. Sabemos o quanto para algumas é uma questão de passar fome ou não, de alimentar os filhos ou não, de sobreviver ou não. Mas, mesmo que não haja saída, tentem não desistir. É uma longa e dura jornada. Para muitas, especialmente as das favelas e periferias, as que labutam nas lavouras, historicamente em desvantagem, praticamente impossível. Mas a pequena Malala nos serve de exemplo, com sua determinação, apesar de tanta dor, física e moral.


Mantenham acesa a chama da justiça, ainda que por um tempo estejam de cabeça baixa. Se nenhuma se submete, os que oprimem – na casa, no trabalho, na rua - terão de mudar. E eduquem seus meninos, com amor e firmeza. Para que sejam homens e não machos.

Nesse dia e em todos os outros do ano, a palavra que importa e que sempre ensinei à minha filha ter em mente é: Respeito! Pelo outro, do outro e por si própria.