sábado, 12 de outubro de 2013

DESCOBRIMENTOS



Quando somos crianças
nos mostram um pátio
onde podemos correr.
E este pátio é sempre
pequeno demais
            para nossos desejos
estreito demais
            para nossos sonhos.
Mas, dizem eles, é tudo o que temos,
e do que precisamos,
e de seus limites
não podemos passar.

Mas o tempo,
que desfaz todas as mentiras,
corre veloz
e acabamos descobrindo,
por nós mesmos
ou por imposição da vida,
que muita coisa há fora dos limites
do pátio de nossa infância.
Muita coisa...
Algumas delas conquistamos sem dor
mas há outras que estão além
dos muros cobertos de arame farpado
e cacos de vidro.
E nos ferimos ao cruzá-los.
E sangramos.
Mas percebemos que, apesar da dor,
mais vale ultrapassar
as fronteiras do pátio
do que viver
sem dor
uma vida
            pequena.


sábado, 5 de outubro de 2013

Sala Escura: MATO SEM CACHORRO



Existe vida inteligente na comédia nacional.



O ritmo é de cachorro novo, ágil, sapeca, imprevisível. Um retrato do Rio de Janeiro sem recorrer a estereótipos, ou melhor, usando os estereótipos com esperteza, sem a preguiça que costuma contaminar algumas produções do gênero.


Pedro Amorim (irmão dos também cineastas Vicente e João Amorim) e o roteirista André Pereira acertam na mão. Doses certas de romantismo, fofura, deboche, humor. E, felizmente, não recuam diante do politicamente correto. Mas nem por isso soam grosseiros, agressivos, baixo nível ou sexistas. Há nudez, mas não apelo ao erotismo (marca registrada de 9 entre 10 produções nacionais), afinal Danilo Gentili pelado não é exatamente  “conteúdo erótico”.


Deco (Bruno Gagliasso) é um produtor musical, sem noção, que vive com fones de ouvido, fora da realidade. Um dos muitos adolescentes tardios que se recusam a virar gente grande. Carioca, divide o apartamento com, Leléo, o primo 100% paulista (Danilo Gentili). Deco faz inusitadas mashups, misturas sonoras juntando parceiros improváveis. A trilha sonora do filme explora de modo eficiente esta característica do personagem.



Um cachorrinho fujão provoca o encontro de Deco e Zoé (Leandra Leal), após um quase atropelamento. O cãozinho, que sofre de narcolepsia e desmaia sempre que fica animado, vai formar com o casal uma típica família feliz. Por dois anos. Cansada dos vacilos de Deco, Zoé, uma radialista dinâmica e batalhadora, parte para outro relacionamento, com o impagável misto de atleta-guru-terapeuta zen vivido por Enrique Diaz. Deco fica sem a namorada e sem Guto, agora um cachorrão.



Usar o recurso do “filme caseiro” para mostrar a passagem de tempo entre o encontro inicial dos protagonistas – rapaz, moça e cachorro – até a separação, dois anos depois, funciona muito bem, na duração certa. Contudo, quanto à duração, o filme poderia enxugar alguns de seus mais de 120 minutos, limando algumas piadas definitivamente dispensáveis ou encurtando algumas cenas.


Um ponto forte é a multiplicidade de referências. Nada passa despercebido. Cenografia, trilha sonora, diálogos, e muitas, muitas referências a filmes, piadas, canções, e até a certa beldade, avessa à depilação, que já mereceu as páginas de uma revista masculina.



Pode haver certo excesso no elenco recheado de nomes conhecidos - Elke Maravilha, Marcelo Tas, Rafinha Bastos, Fausto Fawcett, Sidney Magal – mas não dá pra dizer que se trata de forçar uma barra para encher um filme vazio. A cantora Sandy entra na história e serve de mote pra discutir (va lá, nem tanto) a questão do direito de imagem. Acredite, até uma versão de Zé Pequeno comparece.


Gabriela Duarte está impagável como a mulher liberada, desbocada e que bebe todas, e Letícia Isnard também dá seu recado com competência.  A fotografia, como a música, vai traduzindo os momentos dos personagens, revelando uma Copacabana ora ensolarada ora nublada, céu carregado. E não falta a crítica bem humorada, mas nem por isso menos pertinente, sobre o universo canino e seus excessos, como o Spa para quatro patas. Hilário. E, claro, na trilha não pode faltar o velho e bom Waldick Soriano, que não é cachorro não.


Enfim, são inúmeros detalhes (como o Toddynho e o pão doce colegial), referências, que se encaixam, harmonizam e compõem um filme gostoso de assistir. Até o merchandising de comida pra cachorro desce sem arranhar a garganta do espectador. Tenha você cachorro ou não.



Mato Sem Cachorro (2012, 122 min)

Direção: Pedro Amorim

Roteiro: André Pereira

12 anos (conteúdo sexual, linguagem imprópria)

 



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

ENCONTROS COM DELEUZE, Gilles (1)



Pensamento e Sociedade de Controle



No livro “Conversações” (que reúne entrevistas, cartas e ensaios), o filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995) diz que a Filosofia não trava guerra com potências: faz guerrilhas, mantém conversações. Para ele, Estado, capitalismo, TV, religiões, são potências. Potências não são apenas exteriores, passam por cada um de nós e é graças à filosofia que cada um mantém conversações e guerrilha consigo mesmo.

Sobre Michel Foucault, Deleuze destaca seu espírito guerreiro, afirmando que pensar é um “ato arriscado”, uma violência que se exerce primeiro sobre si mesmo. Foucault aventurou-se para fora do reconhecível e do tranquilizador, diz ele. E é duro com os críticos, afirmando que objeções são como bóias lançadas das margens pelos medíocres e preguiçosos, mais para confundir e impedir o avanço de quem se aventura a este terreno instável e potencialmente perigoso. Deleuze não confina o pensamento no campo da teoria. Para ele, o pensamento é vivo, é vida!

No capítulo “Post-Scriptum sobre as sociedades de controle”, texto de 1990, Deleuze analisa as mudanças no modo de organização e controle social. Nas sociedades disciplinares dos séculos XVIII, XIX e chegando às primeiras décadas do século XX, o indivíduo vai passando de um espaço fechado a outro: família, escola, caserna, fábrica e outros eventuais (hospital, prisão). Especialmente nas fábricas há controle do tempo e do espaço.
Na nova configuração do século XX, há a tentativa de se reordenar os espaços de confinamento, mas estes estão fadados a desaparecer, a dar lugar a novas conformações. Surge então a SOCIEDADE DE CONTROLE. Do confinamento para espaços abertos, mais livres. Deleuze não qualifica como melhor ou pior, mas sugere que se deve buscar novas armas para lidar com esta nova situação.
A empresa substitui a fábrica, as relações se dão numa outra dinâmica. Na fábrica se buscava uma unidade, os indivíduos como massa, vigiada pelo patrão e mobilizada pelo sindicato. Mais alto rendimento e mais baixo salário. Na empresa, a estratégia é fomentar a rivalidade, a competição, como estímulo ao crescimento profissional, melhor salário, prestígio (poder).
Deleuze entende que as sociedades de disciplina/confinamento funcionam como “moldes” e o indivíduo vai passando de uma a outra, sempre recomeçando, sendo “moldado”. Já na sociedade de controle há uma “modulação” permanente, nunca termina. Isto se dá inclusive na Educação, aonde a escola e o exame vão sendo substituídos pela “formação permanente” e um controle contínuo. Para Deleuze, este é o “meio mais garantido de entregar a escola à empresa”.

Ele entende que o que melhor distingue um tipo de sociedade de outra é o dinheiro. Nas sociedades disciplinares o dinheiro referia-se a algo palpável, concreto, o ouro. Nas de controle, o que há são “trocas flutuantes, modulações que fazem intervir como cifra uma percentagem de diferentes amostras de moeda”. As crises econômicas que vêm varrendo diversos países neste começo de século demonstram bem esta fragilidade, esta volatilidade.


Deleuze estabelece ainda uma comparação utilizando as características de dois animais: a toupeira, escavando seus buracos, representa a sociedade disciplinar, de confinamento, enquanto a sociedade de controle, com espaços abertos e aparente liberdade, é representada pela serpente, com seus anéis.

O filósofo analisa ainda as máquinas de cada época e os modos de produção. As máquinas simples, de roldanas, alavancas, das sociedades soberanas, deram lugar a máquinas energéticas, com seus motores, nas sociedades disciplinares. Agora, temos os computadores. Quanto mais sofisticadas, mais suscetíveis a perigos, da sabotagem à introdução de vírus. “Não é uma evolução tecnológica sem ser, mais profundamente, uma mutação do capitalismo”, diz ele.

Se o capitalismo do séc. XIX se materializava nas fábricas, tinha por objetivo a produção e se caracterizava pela propriedade, hoje seu alvo e sua estratégia são outros. A produção foi relegada ao Terceiro Mundo onde a mão de obra barata – e não raro, em condições de escravidão – é farta. Um capitalismo de sobre-produção, que quer vender serviços e comprar ações. Mesmo a arte não escapa a esta nova configuração das relações de produção/consumo na sociedade. Um território onde a corrupção encontra campo fértil para se estabelecer e procriar.  Para ele, “O marketing é agora o instrumento de controle social, e forma a raça impudente de nossos senhores”.


Mas há um aspecto que se mantém: o contingente de excluídos “pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento”. E Deleuze alerta: “o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas.”


Reportando-se ao psicanalista Félix Guattari (com quem escreveu “O Anti-Édipo”) , Deleuze fala da cidade compartimentada por barreiras eletrônicas. Para transpor essas barreiras, o cidadão recorreria a um cartão magnético que lhe daria – ou não – acesso a determinados espaços. O que Deleuze destaca é que o impedimento de acesso não é a barreira em si, mas o computador que controla a posição de cada um, permitindo ou não que ele circule. O autor considera frágeis os exemplos que usa quanto aos mecanismos desta sociedade de controle – nos regimes das prisões, das escolas, dos hospitais, das empresas – mas entende que é preciso avaliá-los, categorizá-los, para que melhor se compreenda este novo regime de dominação. O regime da serpente é mais complexo do que o da toupeira, diz ele.

Ele destaca a atuação dos sindicatos, historicamente ligados às lutas dos trabalhadores, e coloca uma questão: irão eles se adaptar ou, ao contrário, criar novas formas de resistência, capazes de combater as “alegrias do marketing”? E aos jovens sugere que reflitam sobre a finalidade da formação permanente e a qual poder estão sendo motivados a servir.

Entre aqueles que, desde junho, tomaram as ruas de várias cidades é certo que alguns mais que outros estejam conscientes dessa necessidade de reflexão e, assim, mais aptos a questionar e enfrentar a serpente.

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992 (reimpressão 2008)