quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

IMPRENSA, LIBERDADE E FARO


Assisti esta semana, na TV BRASIL (a tv pública, canal 2, no Rio de Janeiro) a trechos de um programa que, se veiculado numa emissora comercial – que investe pesado no marketing - certamente agradaria a muita gente. Mas as grandes emissoras estão ocupadas com outras coisas...

Bem, tratava-se de um documentário, creio eu, de Silvio Tendler sobre imprensa e censura: Preto no branco, a censura antes da imprensa. Recorri ao velho (nem tão velho) e bom Google para saber mais detalhes, mas... nada! Nem no site da Caliban, produtora do Silvio Tendler ou no da TV Brasil achei informações sobre o programa. Nele, Alberto Dines, jornalista, a historiadora Isabel Lustosa, entre outros, revelam fatos muito interessantes a cerca dos primórdios da imprensa no Brasil, ao se debruçarem sobre a vida de Hipolito da Costa, considerado o pai do jornalismo brasileiro. São páginas da história da imprensa, da liberdade de expressão, de perseguições da Inquisição, de nosso país enfim.

Nascido na colônia de Sacramento (Uruguai) em 1774, Hipólito teve uma vida, digamos, bastante movimentada. Esteve nos EUA, onde ficou impressionado com a democracia e a liberdade de expressão que ali floresciam, ao contrário do regime autoritário imposto por Portugal ao Brasil, onde a tipografias não eram permitidas. Daí o título do documentário: a censura no Brasil já existia antes mesmo de termos uma imprensa. Hipólito foi perseguido por ter aderido à Maçonaria e refugiou-se em Londres.

Um fato interessante de que tomei conhecimento é que, em Portugal, a primeira cidade a ter uma tipografia – novidade vinda da Alemanha, onde Gutemberg inventou a composição com tipos, permitindo imprimir/reproduzir textos e não apenas figuras, como já acontecia – foi na cidade de Faro, no Algarve. Judeus lá imprimiam cópias do Antigo Testamento. Estive em Faro em março de 2007 numa adorável viagem por Portugal. Entre as muitas cidades que conheci, Faro teve um sabor especial, algo que reunia história, passado, mas com frescor do presente. Me lembrou a região dos Lagos, mas organizada, limpa e com construções seculares que resistiram ao tempo. Numa viela, a figura de Che (e palavras sobre liberdade), na marina, barcos e iates particulares, o trem simples e pontual que nos leva de um extremo a outro daquela linda região ao sul de Portugal.

Saber que ali começou a imprensa em Portugal me faz gostar ainda mais daquela cidade de nome estranho, conquistada aos mouros, cercada de luz. Sem querer fazer trocadilhos infames, não posso deixar de associar o nome da cidade a um dom que um bom jornalista deve ter, para perceber o que os outros não veem, para enxergar além das simples aparências: faro.

domingo, 29 de novembro de 2009

GRAFITE CONTRA O ÓDIO


O grafite vem ganhando espaço nas galerias de arte e outros eventos, visto hoje não apenas como uma arte menor, da cultura Hip-Hop. Eu pessoalmente adoro ver os muros da cidade pintados com cores vibrantes, imagens expressivas, sejam para alegrar, denunciar, divertir quem passa. Torna a cidade mais humana. Os subúrbios – tão maltratados – ficariam mais alegres se os muros da rede ferroviária que cortam a zona norte da cidade fossem cobertos por esses grafiteiros do bem.

Estas fotos mostram como a criatividade, a arte e a não-violência podem vencer a ignorância, o preconceito, a intolerância. Em cima de uma pichação de ódio, um artista pintou a imagem de um sertanejo na caatinga. O muro é de uma pensão na região central de São Paulo, onde vivem migrantes nordestinos.

Recebi o texto e fotos de um grupo virtual. A fonte que consta é: SÉRGIO RIPARDO - colaboração para a Livraria da Folha.

sábado, 28 de novembro de 2009

SALA ESCURA – CONFUSÕES EM FAMÍLIA


City Island é uma vila pesqueira no Bronx, bairro de Nova York. Um lugar bem diferente da imagem típica que nos vem à mente quando falamos da Big Apple. Confusões em Família também difere e está acima da média dos filmes do gênero bateu/levou em família. Misturando drama e comédia, a receita tem ingredientes bem conhecidos: mulher insatisfeita, homem meio obcecado pelo trabalho, filhos que não são exatamente modelos de responsabilidades e sinceridade.

Mas há novidades no longa de De Fellitta, tanto nas doses certeiras de humor, como no roteiro que flui redondo, sem buracos e onde as peças se encaixam sem forçar a barra. Andy Garcia está excelente na pele do agente penitenciário (não ouse chamá-lo de carcereiro) Vince Rizzo, que manda no trabalho, mas não consegue ter autoridade dentro de casa. Personagens estressados que fumam às escondidas uns dos outros. Mas cada um tem seu segredo, especialmente Vince, que guarda uma secreta paixão pela arte de atuar e esconde no banheiro um livro sobre a vida de Marlon Brando. Mas há outros segredos e as surpresas que não deixam a peteca cair e fazem do longa algo mais que mera diversão. E a música também é ótima. Esqueça o título bobo da tradução (mais um!) e vá ao cinema sem medo de ser feliz. Estréia no Rio no dia 11/12.

CONFUSÕES EM FAMÍLIA (City Island)
Direção: Raymond de Felitta
Clasificação: 14 anos – Duração 103 min - EUA, 2009

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

DO PORÃO DE BANDEIRA DE MELLO


“...Navego e trago dentro de mim, como num porão cheio de lembranças amontoadas no decurso dos tempos, já com a linha de flutuação submersa, o registro de minhas relações com todos os lugares onde vivi, com paisagens percorridas ou imaginadas, vistas em um relance fugaz em viagens hipotéticas ou não e mais com as ideias lidas ou ouvidas nas esquinas da vida, ponte de encontro dos que se movem.... então é preciso desenhar e pintar...”

Percorrendo a exposição “Eu existo assim” na Galeria 2 da Caixa Cultural, podemos ler em cada uma das obras expostas cada palavra deste depoimento de Lydio Bandeira de Mello. Nas cores fortes do projeto para o SENAC (1995), no impacto da figura do peregrino (ou será um missionário?), com seu rosto e mãos incrivelmente expressivos, emergindo do branco (sem título, 2009), ou na suavidade/sensualidade da mulher nua, onde quase se pode sentir a textura de sua pele, do cabelo negro, ou do tecido que a cobre/descobre (sem titulo, 2004).

Das imagens pintadas ou desenhadas pelo artista, diz Angela Ancora da Luz, Diretora da Escola de Belas Artes: “...a figura humana surge vitoriosa. Ela não possui apenas ossos e músculos, pele e fisionomia. Bandeira pinta a alma...”

A exposição fica na Caixa – um pouco a casa de Bandeira de Mello, já que acolhe nas paredes do mezanino enormes painéis feitos especialmente para o edifício-sede, nos anos 1970 - até o dia 17 de janeiro. No próximo sábado, dia 28/11, Bandeira de Mello estará lá, às 15h para um debate, e às 19h numa visita guiada. Detalhes na Agenda.




domingo, 11 de outubro de 2009

ONDE O SÉCULO XXI SE ENCONTRA COM ANTIGOS SABERES

A Feira Brasil Rural Contemporâneo é um sucesso, a julgar pela multidão que se espremia ontem, “viajando” de um estado para outro, nos pavilhões armados na Marina da Glória. O tempo ruim pode ter atrapalhado as atividades externas, na Praça de Alimentação e no Tablado de Raiz, mas na área coberta, dividida pelas regiões do Brasil, as atividades fervilhavam.

A diversidade de produtos oferecidos – biscoitos, queijos, frios, cachaças, bonecas, mel, bolsas, e muito mais – enche os olhos do visitante e os carrinhos de compra circulavam abarrotados de belezuras e gostosuras. Produtos orgânicos, sabores nortistas, mineiros, sulistas; artesanatos confeccionados por mãos indígenas e quilombolas, com palhas e fibras variadas e sementes de frutos de nomes sonoros. Do norte ao sul, passando pelo centro-oeste, todos os sotaques, peles rosadas, morenas, caboclas e negras.

Por trás disso, além do valor de cada trabalhador rural, descobrimos muitos projetos – estaduais ou federais – que vêm sendo desenvolvidos por esse Brasil afora. Um deles é o Projeto Dom Hélder Camara, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), com atuação no Nordeste, já no seu sexto ano. Está presente em 77 municípios e envolve mais de 15 mil famílias, combatendo a pobreza levando soluções de baixo investimento ao semi-árido.

No nosso Estado do Rio, a Secretaria de Agricultura, pecuária, Pesca e Abastecimento desenvolve projetos voltados para a agricultura familiar, tais como: Rio Horti (horticultura), Rio Genética (pecuária, produção de leite e carne), Rio Peixe (de assistência técnica à promoção do escoamento da produção pesqueira); Florescer (floricultura), entre outros. Segundo folheto informativo da Secretaria, das 62 mil propriedades rurais do estado, 92% possuem área inferior a 100 hectares, ou seja, o pequeno produtor, que trabalha em família, é o grande fornecedor de alimentos de nossa população.

As manifestações artísticas também estão na Feira, trazendo para as margens da Baía de Guanabara o Reisado, o Maracatu, o canto das Quebradeiras de Coco de Babaçu, e tantas outras festas de ritmos e cores irresistíveis. No palco multicultural, um encontro entre o carioca Gabriel, o Pensador e o baiano Bule Bule, que há mais de 30 anos divulga e preserva os sons nordestinos. Unindo os dois, além da musicalidade e irreverência, o olho atento às questões sociais. No show, também a banda Feira Livre (RJ).

É fundamental para quem vive nos grandes centros urbanos conhecer este Brasil que trabalha, produz, movimenta a economia, preserva culturas centenárias sem abrir mão dos avanços tecnológicos, promovendo uma integração entre passado e presente que acena para nós com um futuro mais promissor do que vislumbramos quando lemos os jornais das grandes cidades. Enquanto nossa rotina é invadida por medo de assaltos, balas perdidas, enquanto nos cercamos de grades e perdemos boa fatia de nossa existência (e paciência) nos engarrafamentos, um Brasil que a maioria de nós desconhece – ou ignora – pulsa em outro ritmo. Vivem num paraíso? Claro que não! Sua história tem muita labuta, superação de dificuldades, inclusive de preconceitos. Mas sem dúvida vivem numa outra realidade e é na soma dessas realidades – urbana e rural – que está aquele “país do futuro” que o Brasil há décadas busca encontrar.

Nas fotos:
Gildete Vasconcelos, tecelã mineira
Produtos Orgânicos
O boneco Osvaldão, com o manipulador Carlos (Arcas das Letras)
Gabriel, o Pensador e Bule Bule no Palco Multicultural