sexta-feira, 31 de julho de 2009

ACENDAM AS CANDEIAS



No último dia 24, uma manifestação – Caminhada em Defesa da Vida - lembrou os 16 anos do bárbaro crime conhecido como “Chacina da Candelária”, acontecido em 23 de julho de 1993. Naquela noite terrível, mais de 70 crianças e adolescentes dormiam, como de costume, nas proximidades da Igreja da Candelária, no centro do Rio. Policiais, envolvidos com ações de extermínio, os surpreenderam: oito crianças morreram fuziladas, sem chance de defesa, e outras dezenas saíram feridas. A artista plástica Yvonne Bezerra de Mello (que hoje está à frente do Projeto Uerê), correu em sua ajuda. O episódio teve repercussão internacional e ganhou o triste status de um dos piores crimes cometidos contra os Direitos Humanos e o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Nove anos antes, mais precisamente em janeiro de 1984, passando de ônibus, rumo ao trabalho, por este mesmo local, três meninos me inspiraram a escrever o poema abaixo. Premonição? Não sei, mas aqueles meninos me diziam algo.

PAISAGEM URBANA ou CANDELÁRIA

Olhe, olhe bem,
são três meninos.
Olhe seus rostos,
olhe seu sono,
tente adivinhar seus sonhos.
Olhe com cuidado,
com atenção.
Dois pretinhos,
um branquinho.
Um se encolhe como um feto,
parece ter frio
Outro se espalha como numa boa cama,
cama de mármore sob a marquise do Banco.

Olhe bem,
são três meninos.
Dormem na rua,
nos vãos das portas,
nas frestas da cidade
(monstro urbano).
Escondem-se do sol
que às sete horas já queima.
E no inverno,
onde se abrigam os três meninos?

Olhe bem,
São três:
dois pretos, um branco.
Sujos, semi-nus
pivetes, ladrões, assassinos
(quem sabe?)

Dormem,
são apenas crianças.

Olhe bem e veja
se no seu sono
não se parecem com aqueles
que temos em casa.


A foto que ilustra este post é de Luiz Fernando Dudu Azevedo.

domingo, 26 de julho de 2009

PASSARINHO


Deitou, coração desassossegado. Passarinho preso no peito, querendo voar. Será que tem gente assim, que também tem passarinho no peito?

Bate asas, não sossega, o passarinho.

A mão alcança o copo na mesinha de cabeceira. Será que beber água ajuda? Aperta os olhos, buscando escuridão. Mas os filmes-pensamentos não param de passar.

Respirar fundo, encher o peito e depois esvaziar tudo, contraindo o abdômen. Relaxar. Dormir.
Não funciona.

Os pés estão gelados. E o passarinho não se aquieta. O cachorro do vizinho também não. Late e, como é um pastor alemão, não é um latidozinho qualquer. O passarinho também não deve ser um sanhaço qualquer. Deve ser grande, sabiá, talvez maior.

Por que será que o cachorro late? Viu alguém? Tem fome? Quer sair, correr? Ou quer apenas companhia, no frio da noite?

E o passarinho?

segunda-feira, 29 de junho de 2009

ANTES QUE JUNHO ACABE, SIN PERDER LA TERNURA


No dia 18 rolou mais uma edição da Mostra Cubana, também conhecida como Chama o Raúl. O Castro, é claro! Poesia, boas conversas, exibição de fotos muito maneiras, mojitos, e música caribenha da melhor qualidade. Um momento caliente na noite fria de Santa Teresa.

Homenagem especial a Ernesto Guevara de La Serna, o eterno Che, que completaria 81 outonos no dia 14 de junho. Publico aqui um poema que fiz para ele, tocada pelas imagens de seu funeral, na cidade de Santa Clara, em Cuba, em outubro de 1997.

CHE

Dorme menino, dorme
Sob o céu de Santa Clara
Dorme sob o céu claro
Dorme, menino.

Dorme e sonha
E no sonho voa
Para outros lugares
Distantes
México, Guantánamo,
Havana, Buenos Aires...

Voa, mas volta logo
Que já não sabemos ficar
Muito tempo longe
Do teu sorriso.

Dorme menino, dorme
Que nós velamos teu sono
E guardamos teu sonho
Cativo dentro de nós
Luminoso, belo e generoso
Como o céu de Santa Clara.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

CONTAGEM DO TEMPO


Celebrando a vida, em mais um aniversário, contabilizando mais de 50 velinhas, bom recordar a sabedoria de Mário Quintana:

“A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo:
Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo,
pois a única falta que terá,
será desse tempo que infelizmente não voltará mais.”

Sem deixar esquecido outro poeta, de além-mar, Fernando Antonio Nogueira Pessoa, nascido, como eu, num dia de junho.

ANIVERSÁRIO
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado...
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos(Fernando Pessoa), 15-10-1929

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sala Escura: TINHA QUE SER VOCÊ


LONDRES SEM BIG BEN

O título traduzido não ajuda muito, pouco criativo, é mais clichê do que todos os clichês que o filme tem. Sim, o longa tem lá os seus lugares comuns, mas é deliciosamente previsível. O roteiro está bem acima da média dos filmes do gênero. Usando a manjada (mas eficiente) estratégia de narrar duas ações simultâneas, em locais diferentes, o filme de Joel Hopkins traz um Dustin Hoffman em ótima forma e Emma Thompson absolutamente encantadora. Quando os dois se encontram... a reação química é perfeita!

Harvey (D.Hoffman) mora em Nova York e é aquele sujeito que vive preso aos ponteiros do relógio, apressado, e é claro que sua vida pessoal é um desastre. E a profissional também não anda lá essas coisas. Kate (E.Thompson) leva uma vida sem grandes emoções, em Londres, abordando passageiros no aeroporto para que respondam a pesquisas sobre visitantes. Além de administrar a vida da mãe, que a controla o tempo todo, Kate tem de embarcar nas “armadilhas” que amigos bem intencionados lhe preparam, a fim de que dê um fim a sua vida de solidão.

Tal como o Náufrago (de Robert Zemeckis, vivido por Tom Hanks), os esforços de Harvey para controlar tudo a sua volta não funciona e uma série de contratempos vai lhe dar uma rasteira. E adivinha nos braços de quem ele vai cair? Bingo! Mas o filme não é tão raso como pode parecer. Os personagens são convincentes e os diálogos inteligentes, permeados de bom humor. São humanos, como qualquer mortal, com a fragilidade de suas convicções, ciúmes, despeito, preconceitos, medo da rejeição. Tudo que precisam é se dar uma chance.

Comédia, drama e romance se equilibram ao longo da trama. Um homem atrapalhado, sentindo-se deslocado na cerimônia de casamento da filha (bancada pelo padrasto), tem de enfrentar a si mesmo e para isso vai contar com o auxílio luxuoso da fria (nem tanto) amiga londrina. Aliás, sobre o jeito inglês de ser, há uma interessante referência (ou reverência) à princesa Diana.

Se em Antes do Pôr do Sol (de Richard Linklater) o espectador passeia pelo coração de uma Paris sem Torre Eiffel, Tinha que ser Você nos leva a adoráveis recantos de Londres, longe do Big Ben. Um filme fofo, mas quem não precisa disso de vez em quando? Vá ao cinema, sem vergonha de se emocionar. Ah, uma dica: não saia antes dos créditos finais.

Tinha que ser Você (Last Chance Harvey)
Direção/roteiro: Joel Hopkins
EUA, 2008 - 93 minutos – classificação: 12 anos
Site internacional: www.lastchanceharvey.com