domingo, 3 de julho de 2016

CRÔNICAS PERUANAS - Rumo aos Andes



O voo TACA-920 saiu do Galeão na madrugada do dia 22/06, quase amanhecer. O dia foi clareando lá nas alturas de modo que, ao atravessar a cordilheira, já estava claro, ainda que estivéssemos voando na direção oposta ao nascer do sol.



Sempre gostei de mapas, talvez porque, de certo modo, viaje dentro deles. O que tínhamos abaixo de nós era como um mapa, daqueles que usamos na escola (ou usávamos... parece-me que a Geografia, como a História - ou seja, a noção de nosso lugar no mundo e no tempo - não tem sido muito privilegiada no ensino dos últimos tempos). Bem, o mapa se abria lindamente, aqueles relevos mais e menos escuros, amarronzados, cheios de curvas, dobras, picos nevados. Parecia que poderia tocá-los.



Um lago imenso se mostra, exuberante, azul puríssimo. Só pode ser o Titicaca (ou Titikaka, como nos ensinaram depois). E um rio extenso serpenteia por entre as montanhas. Urubamba (eu já havia feito a lição de casa). Sentada no corredor, vejo o casal fotografando pela janela e peço para também tirarem umas fotos para mim. Brasileiros, simpáticos, emocionados como eu naquele começo de aventura rumo ao mundo Inca. Coincidentemente nos encontraríamos no voo de volta, embora tenhamos feitos roteiros distintos.






O aeroporto de Lima não fica em Lima, mas em Callao, cidade vizinha, que também é um porto marítimo. Mortinha de cansada e sono, consigo achar a plaquinha com meu nome no meio daquele povaréu. Sigo com o guia, sujeito muito gentil e simpático, entramos na van e ele começa a me contar a história da cidade, olhando fixamente nos meus olhos, que eu lutava para manter abertos. Ele cumprindo sua missão e eu tentando não ser deselegante. Gostaria de ter, neste momento, outros turistas na van, mas só eu estava nesta primeira etapa.


Enfim, chegar ao Hotel Jose Antonio Miraflores (bairro bacana), tentar mexer o mínimo na mala (no dia seguinte muito cedo teria de voltar ao aeroporto para voar para Cusco), almoçar, um banho de gato (com o frio que fazia, se tomo banho demorado, não sairia mais), e esperar a van pro tour pela capital peruana.


Lima é uma cidade cinza (ou gris, como dizem eles) quase todo o ano. Só clareia lá pra setembro. Construída sobre um deserto, não tem bueiros porque nunca chove, mas estava caindo uma garoinha só pra contrariar. Dois avisos me fizeram esquecer por um tempo o temor principal (mal da altitude): um deles, pela orla, indica rota de fuga em caso de tsunami. Outro, presente em todos os prédios, afixado sob as vigas das construções, indica “lugar seguro em caso de sismos”. Que eu não precise me preocupar com nenhum dos dois. Amén.



Lima tem seu Parque Guell. O Parque do Amor, inspirado no de Barcelona, obra de Gaudí, é bem bonito. Ali pude ver, do alto da falésia, o Pacífico, pela primeira vez. Aquele pedaço de orla me lembrou um pouco Montevidéu e me deu uma saudade enorme do Uruguai.



Durante boa parte do percurso do tour vê-se uma espécie de barreira de terra, bem alta, ao lado de uma avenida. Estranha, feia mesmo. A explicação veio depois e, junto, o interesse. Trata-se do sítio arqueológico Huaca Pucllana, de época anterior aos Incas. À medida que foram desbastando aqueles monturos, descobriram uma espécie de pirâmide, possivelmente usada para sacrifícios em seu topo, já que ali encontraram ossadas. Há uma grande área preservada que se pode visitar, mas não nos detivemos ali. Se um dia voltar a Lima, aquele local é um que gostaria de conferir de perto. Tirei fotos de dentro do ônibus, mas as perdi misteriosamente. Esta aqui achei na internet.




City Tour que se preza passa pelos prédios monumentais da cidade, palácios de Governo, praças, igrejas. A Catedral de Lima surpreende por ser feita em madeira, com bambu, por causa dos terremotos que já a destruíram algumas vezes. Impossível adivinhar isso, olhando para suas sólidas colunas. Um recorte numa das paredes revela como foram construídas. Essas colunas são ocas e têm um acesso na parte superior, para manutenção. 






Alma cigana que tenho, me encantou especialmente o Convento de Santo Domingo, com seus azulejos da Andaluzia, pátios internos, jardins, sacadas em arco. Abriga uma biblioteca com exemplares raros e os túmulos de dois santos venerados no Peru: Santa Rosa de Lima (a primeira santa das Américas) e San Martin de Porres. Interessante como é clara a diferença entre a colonização portuguesa e a espanhola, expressa na arquitetura. História viva, palpável, com suas glórias e tragédias.







Os ônibus que vi circulando me fizeram achar os do Rio verdadeiras limousines. A maioria é tipo microônibus, com o teto muito baixo, sempre muito sujos (não chove, não lavam), entupidos de gente. Fiquei constrangida em fotografar as pessoas espremidas ali. Me compadeci delas.


Na volta, fui procurar um café (tão comuns em Buenos Aires, em Lima não achei tão fácil), garantir mais uns Soles (100 USD = 326 Soles), voltar pro hotel, uma comidinha leve por ali mesmo e me preparar para mais uma madrugada de movimento. Ainda bem que eles liberam o desayuno a partir das 4h.

Foto Huaca Pucllana: http://viajeaqui.abril.com.br/estabelecimentos/peru-lima-atracao-huaca-pucllana/fotos#2


2 comentários:

eli disse...

Adorei!!!!! Pode continuar.

Tecelã disse...

Não perca o próximo capítulo, não sei o dia nem a hora...hehehe.