quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A PENTEADEIRA DA VÓ SANTINHA


Alguém disse que avó é mãe com açúcar. O açúcar anda em baixa, tido como vilão de muitos males que assolam a sociedade moderna. Mas açúcar será sempre sinônimo de doçura e energia. Assim era a avó Balbina, Bina para todos que aprenderam que sua varanda estava sempre aberta para receber quem chegasse, para uma conversa ou um pedido de ajuda. Na última sexta-feira, vó Bina deixou sua casinha em Nova Iguaçu e foi para uma nova morada, para onde vão pessoas doces e diligentes em prestar solidariedade ao próximo (como a tia/avó Lavínia, do lado de cá da família, que também partiu há quase um ano). Ficou um vazio, uma saudade, mas especialmente o exemplo de uma pessoa especial. É em homenagem à Vó Bina, a avó paterna de minha filha Luana, que publico aqui este pequeno conto escrito em 2002:

A PENTEADEIRA DA VÓ SANTINHA possuía pequenas gavetas e o mistério que elas guardavam era para mim irresistível. Imaginava eu quantas preciosidades estariam ali escondidas, jóias de contos de fadas, pétalas de flores já secas pelo tempo, pequenas fotografias amareladas de homens sisudos em colarinhos altos, entre elas alguma talvez com uma dedicatória, palavras de amor.

Um dia, vó Santinha morreu. Disseram-me que ela havia ficado muito cansada e fora para o céu, dormir com vovô João e tio Augusto – esse, um tio que morrera antes mesmo de eu nascer e sobre quem se falava raramente, quase que em sussurros. Antes de qualquer sentimento de dor, de perda, veio-me à mente a penteadeira, com suas muitas gavetas, agora órfãs. Queria desesperadamente abrir aqueles pequenos compartimentos, verdadeiros cofres, para mim. Mas, como pedir isso a minha mãe, naquele momento?

Anos depois, já adulta, voltei àquela casa, onde viviam alguns parentes e, para mim, a memória de vó Santinha. Muitas coisas estavam diferentes, outros objetos, outra mobília. Lembrei-me de repente da velha penteadeira. Corri para o quarto. Nada! Onde estaria? Percorri os cômodos e enfim encontrei a arca do tesouro no quartinho de empregada. Empoeirada, esquecida. Delicadamente, quase como num ritual sagrado, abri aquelas pequenas gavetas e, com o coração saltitando e pérolas escorrendo dos olhos, encontrei a jóia mais rara: minha infância.

12 comentários:

Estava Perdida no Mar disse...

Que a vó cuide dos seus netinhos espirituais com muito açúcar e muito afeto.
Q texto lindo, Teresa.
Bjs

João Alberto disse...

Texto fantasticamente bonito, Tereza. Não sei o que dizer as palavras estão nas gavetas.

A Vó Bina está cuidando da gente.Tenho certeza.

Se tiveres mais fotos da Bina, mande pra mim. joaoaclima@gmail.com
Bjs.

Tecelã disse...

Obrigada, Jaque, pela visita e pelo doce comentário.
bj.

Tecelã disse...

Fico feliz que tenha te emocionado. Estas gavetas são preciosas e não podemos nunca esquecer de abri-las de vez em quando.

Esta foto eu tirei em 2002 e agora a fotografei com a camera digital pra colocar no blog. Na original estão tbm o Moreira e a Luana.
bj.

Philipe Lima disse...

Sem palavras tia...
bjus

nane disse...

muito lindo, tê. nestes dias de inverno, em que me sinto mais tristonha e voltada pras minhas gavetas, foi especialmente bom ler este texto.
bom tb foi ver a carinha da vó bina. deu saudade... mas saudade boa!!!!

Werther-Pan disse...

Lindo conto e bela homenagem.
Abraços!
Vitor.

Beth disse...

Emociante. Linda homenagem.

Luana disse...

Era bom ter 2 duas mães...poucas pessoas tem esse privilégio...
até pouco tempo eu falei: " minha vó vai viver uns 200 anos"
mas axo que ela vai viver pra sempre ... mto mais que 200....
obrigada mae pela homenagem... te amu viu!!!

Anônimo disse...

Tê,
além da emõção pela homenagem à Vó Bina e pelo lindo texto, senti também orgulho da minha irmã, capaz de transformar em palavras escritas sentimentos tão delicados.
Beijo carinhoso,
Nana

Evelyn Moraes disse...

Adorei o texto, Tereza! Muito Bom! Parabéns pelo blog! Está muito agradável de ler.

Sucesso!

Bjo!

Marcelo "Russo" Ferreira disse...

Não conheci Vó Bina.
Mas me tornei amigo e admirador de João Alberto e, acredito, que o que ele é aprendeu com a Vó Bina...
Mas o texto em si é revelador, lindo, poético, profundo, sensível... palavras faltariam.
Vida Longa a Vó Bina
Marcelo Russo