sábado, 14 de dezembro de 2013

UM MENINO DA LIBÉRIA E UM PENSADOR DA ALEMANHA


O porteiro me entrega uma caixa. Acho estranho, não havia feito nenhuma encomenda. O nome e o endereço do remetente não me dizem nada. Desconfiada, vou abrindo o pacote com o selo dos Correios.


 
De dentro dele sai um canudo (e aí eu já começava a suspeitar qual sua origem), do canudo sai uma folha de papel, no papel, um desenho. Um desenho e muito mais. As mãos de uma criança, a centenas de quilômetros do Rio de Janeiro, traçaram aquelas linhas, criaram formas, escolheram os lápis de cor, coloriram, deram nome às figuras. Está assinado e datado.




A essa altura as lágrimas já me escorriam dos olhos e eu só sentia uma imensa vontade de abraçar, bem apertadinho, aquela criança africana. Muito mais do que um desenho infantil saiu daquele canudo. Algo que nem a internet, nem uma fotografia, nem a Xerox poderiam me dar. O que veio junto com as formas e as cores foi uma energia, uma vibração. Mais do que um pedaço de papel, chegou-me pelos Correios a aura daquela obra de arte. Arte do traço, da cor, da forma e, acima de tudo, a arte do carinho, da alegria, do desejo de conexão, de encontro com o Outro.



O pequeno liberiano Marcus provavelmente não sabe quem é o alemão Walter Benjamin, mas, na época da reprodutibilidade técnica elevada a altíssima potência, desafiou o texto(1) do famoso sujeito. A cópia democratiza a arte, mas, nem a morte da aura é a morte da arte - como alerta Jesús Martin-Barbero(2) - nem as reproduções invalidam a magia da aura, que só o original pode conter.


Obrigada, Marcus.







A ESCOLA DE BAMBU 

Escola de Bambu é um belo documentário que mostra de maneira sensível e competente um dos lados mais perversos da guerra: destruir o futuro das crianças, suas esperanças e sonhos. Mas, revela também a força daqueles que não desistem da vida.



Assisti ao filme durante a 15ª Mostra do Filme Etnográfico, em 2011, como jurada pela ABDeC, a convite do documentarista Clementino Jr. Fiquei comovida. Aderi à campanha, naquela ocasião, adquirindo DVDs e alguns materiais. Mais recentemente, participei do movimento de crowdfunding que o projeto lançou para avançar na construção da escola.

Recebi por e-mail notícias e doces mensagens de carinho e a informação de que eu receberia o original de um desenho. Passaram-se alguns meses e ele enfim chegou.



 















 
Escola de Bambu (The bamboo school)


Direção: Vinicius Zanotti (Brasil, 2011, 15’)


Sinopse: Uma escola na periferia de Monróvia, na Libéria, com paredes de bambu e teto de zinco acolhe crianças e jovens vítimas da guerra civil. Na escola, 140 alunos são alfabetizados, têm aulas de ciências, matemática, inglês, geografia e história.










1) A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. In: Obras Escolhidas. Vol.I. Brasiliense, 1994



2) Martín-Barbero aponta uma distorção acerca da interpretação do famoso texto de Walter Benjamin sobre a morte da aura, afirmando que ele, “reduzido a umas tantas afirmações sobre a relação entre arte e tecnologia, tem sido convertido falsamente em um canto ao progresso tecnológico no âmbito da comunicação ou tem-se transformado sua concepção da morte da aura na da morte da arte.” (Dos meios às mediações. Ed. UFRJ, 2009, p.81).



4 comentários:

Virgílio Moura disse...

Lindo esse texto...e sua sensiblidade me espanta.

Tecelã disse...

Caro Virgílio, às vezes a mim também. Para o bem e para o mal. Obrigada pelo carinho.

G! disse...

Que super mesmo, se envolver sem saber bem como a relação vai se dar, seja com suas contribuições, seja com o mero conhecimento do seu gesto no meio de outros mais e derepente ter a resposta, a confirmação de que a conexão foi feita.
Não é mesmo por uma confirmação de débito na sua conta em nome do beneficiário, funciona mesmo como sentiu, sabendo que o menino pegou o papel e os lápis pensando em te corresponder com o melhor que ele podia dar.
Legal !

Tecelã disse...

Valeu, George, a visita e o comentário. Você captou direitinho o que eu quis dizer. Beijocas!