sábado, 30 de maio de 2009

Sala Escura: VOCÊS, OS VIVOS


Esses vivos, observados com certa reserva por uma câmera discreta e parada, nem parecem tão vivos assim, em sua palidez e frequente apatia. Mas, com toda sua estranheza – e guardadas as proporções, já que estamos falando de um filme sueco -, se observarmos bem, percebemos o quanto sua morna existência nos é familiar. A quentura e a exuberância dos trópicos não raro escondem dilemas e angústias semelhantes aos dos personagens do filme de Roy Andersson.

Comédia ou tragédia? Marque a opção “as duas alternativas estão corretas”. Com um quê de Jaques Tati, mais ácido, desfilam pela tela umas 50 pequenas histórias que podem ou não se entrelaçar, onde pesadelos e sonhos são recorrentes, este (o mundo dos sonhos) o único lugar possível para a realização plena.. Como Tati, Andersson tem um modo peculiar de observar e, por que não, sorrir das misérias cotidianas. Medo, culpa (muita culpa), ansiedade, insegurança, chantagem emocional, frustração... está tudo lá.

Amanhã será outro dia”, uma frase que pontua a narrativa, é o ritmo que rege a existência dos tais vivos, que parecem o admirável gado novo da música de Zé Ramalho, tangidos por uma força que os amarra a cais de onde relutam em partir. Alguns esboçam reações, mas se limitam a queixas e não buscam ações transformadoras. Outros encontram a oportunidade de diálogo na câmera, olho que os espia sem interferir. O psiquiatra confidencia seu diagnóstico e frustração, diante de pacientes egocêntricos e mesquinhos.

Conformismo, lamento, autopiedade pontuam a vida da professora que chora diante dos alunos porque brigou com o marido e, que por sua vez, vende tapetes e chora diante dos clientes; ou da filha que tenta interagir com a mãe caquética, trazendo à tona lembranças de tempos sofridos; do casal punk que não consegue sintonia. Há espaço também para referências à intolerância étnica e ao nazismo, oculto sob uma toalha na mesa de jantar, adornada por louças centenárias. Músicos tocam jazz, mas a vibração da música não os contagia. São seres bizarros, mas definitivamente comuns: frágeis, carentes, desejosos de aprovação, carinho, afeto.
No bar, onde alguns conseguem se aproximar e travar algum diálogo, o sino toca, avisando: hora dos últimos pedidos. “Amanhã será outro dia”. A tela do cinema toma ares de tela pintada, com cores suaves, quase oníricas, tons pastéis, pequenos e delicados detalhes, minuciosamente enquadrados pela câmera-olho.
As cenas finais se não chegam a tirar o fôlego, dão aquele friozinho na espinha, ou aquele calor no peito. Alguma coisa de Nós que aqui estamos por vós esperamos (filme de Marcelo Masagão, de 1998), algo de grandioso, que assusta e fascina.

VOCÊS, OS VIVOS (Du Levande)
Direção e Roteiro: Roy Andersson
Fotografia: Gustav Danielsson
Música: Robert Hefter
Elenco: Jéssica Lundberg, Elisabet Helander, Björn Englund, Leif Larsson, Olie Kemal Sener, Gunnar Ivarsson, Hâkan Angser, Birgitta Persson
Suécia / Alemanha / França / Dinamarca / Noruega, 2007, 94 min, 16 anos

Veja comerciais de Roy Andersson no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=7ofPRv29RMs

domingo, 24 de maio de 2009

“A VOCAÇÃO HUMANA É CRIAR”





O convite do Espaço Utopya/Tempo Glauber dizia: Workshop Dramaturgia e Interpretação / Cinema e Televisão, com Domingos Oliveira. Propaganda enganosa! Durante cerca de 60 minutos, Domingos – que abriu a conversa dizendo não saber sobre o que falar – deu uma aula não exatamente de dramaturgia e interpretação, mas daquela matéria que está por trás destas atividades artísticas. O mestre falou pouco de “técnicas”, mas muito de “alma”.

Contando passagens vividas ao longo de seus 72 anos, Domingos contou casos, falou da dor e delícia de ser ator, autor e diretor. Na casa de Glauber Rocha e na presença da mãe do cineasta baiano, contou que certa vez foi abordado por Glauber que, sabendo que Domingos trabalhava num novo filme, lhe perguntou: “Qual o escândalo de seu filme?”. Estava aí o tom daquele bate-papo na noite da última sexta-feira.

A trajetória de Domingos é marcada pela coerência de um artista que se mantém fiel (sem ficar na mesmice) a seus sonhos. Seu primeiro filme Todas as Mulheres do Mundo, realizado num sistema de cooperativa dos próprios atores, foi um sucesso nunca mais repetido: rendeu 11 vezes o que foi investido. O seguinte, Edu Coração de Ouro, também se pagou, mas daí pra frente ele só colheu prejuízos, como aconteceu com Feminices e Carreiras. Angustiado por aquele peso, um dia, reuniu toda a papelada que representava suas dívidas, colocou numa mala e jogou no mar. Mas, ao longo do tempo, pagou tudo, garante ele.

Sobre suas obras não exibidas, Domingos revela que, como, literalmente, não pode viver sem criar, o único jeito é trabalhar continuamente. E alerta: um ator certa vez se afastou do teatro, e o teatro também se afastou dele. Entende que todo mundo precisa ganhar dinheiro, mas também precisa fazer o que quer. “A vocação humana é criar”, declara Domingos, que acredita que o mundo só será um lugar feliz quando todo homem for artista

ARTE
E o que é a Arte? Para ele, é o mistério, o que não pode ser dito, explicado e é por meio dela que a vida nos é ensinada: aprende-se o que é um girassol ao ver um quadro de Van Gogh e para saber o que é o sertão, basta ver os filmes de Glauber. “Arte que não faz crescer sua alma, não é arte”. Um jeito diferente de falar do “escândalo” professado por Glauber.

Fã das técnicas do russo Stanislavski, Domingos diz que representar é o jogo da imaginação, que é preciso ser uma pessoa que você não é. Para ele, o cinema é mais próximo do realismo; no teatro o ator precisa mais do que técnica. “Tenho muito respeito pelos atores, embora sejam uns chatos” completa sorrindo, lembrando que para ser escritor, foi preciso ser também ator e diretor.

FINANCIAMENTO – FILMES BOAA
Não tem jeito, o orçamento influencia na estética de um filme, não dá pra fazer cinema sem dinheiro. No teatro ainda dá para adaptar, reduzindo elenco, cenários. Mas, Domingos acredita que o filme bom é o filme barato, onde se pode trabalhar de forma independente, por isso lançou em 2005 o manifesto do filme BOAA – Baixo Orçamento e Alto Astral. Dá como exemplo seu filme Juventude, que foi unanimemente elogiado e premiado em festivais, custou 800 mil reais, teve 18 mil espectadores. Mas... o filme “global” Se eu Fosse Você 2, vendeu 6 milhões de ingressos. “Se o filme não tem um grande orçamento e atores da Globo, fica no gueto do Estação”, diz ele, referindo-se ao circuito que acolhe os filmes de arte.

No momento em que fervilham as discussões sobre a Lei Rouanet, Domingos prega que o destino do cinema brasileiro deve pertencer ao governo brasileiro, não pode ser terceirizado. E que só deveriam ser feitos filmes bons, especialmente quando se tem em mente o mercado externo, onde só tem vez o filme de arte.

Domingos já desistiu da bandeira das obras prontas: em vez de financiar obras a serem feitas (projetos), o governo deveria pagar pelas obras já realizadas. Em vários países o sistema é esse, inclusive na Argentina – onde o cinema vai bem, obrigado. Na terra dos hermanos, o autor recebe o que gastou e mais uma quantia para finalizar o trabalho. Aqui, filme pronto não pode concorrer para financiamento algum, lamenta o artista.

PROCESSO CRIATIVO - A Terra das Peças e Filmes Prontos
“Roteiro é a forma mais complexa de literatura, só autor/diretor entende”, diz ele. Famoso por mudar diariamente seus textos, levando seus atores à beira da loucura (“mas eles acabam compreendendo e respeitando”), Domingos acredita que a obra deve ser assim, reconstruída a cada dia. O diretor não pode planejar. Planeja apenas a intenção. Ele acredita que qualquer ator lê bem um texto. Se o resultado não é bom, é porque o texto está ruim. Mas não se trata de um processo de decorar, mas de entender o que está escrito.

Domingos trabalha diariamente, de manhã à noite; é muito produtivo. Atualmente tem duas peças em cartaz: Confronto e Apocalipse segundo Domingos Oliveira. Sobre esta produtividade, revela um segredo, uma lei que segue religiosamente: terminar tudo que começa. E produz muito também porque acredita que há coisas – inclusive de sua vida - que é preciso contar. Como na peça Confronto onde, segundo ele, há a necessidade de compartilhar o que diz Luiz Eduardo Soares (autor de A Elite da Tropa): a violência tem solução.

Dá a “receita” de seu processo criativo: escreve tudo que vem à mente, escreve com as mãos, não com a razão. Ele chama estes escritos de “material indomável”. Depois, tenta organizar. Se tiver conhecimentos técnicos, ajuda, mas não resolve, avisa. Num determinado momento, aquilo vira algo racional e fica muito ruim. “O escritor vira uma arrumadeira”, diz ele. Mas é preciso insistir, até o instante em que os personagens começam a adquirir vida própria e a traçar seu próprio roteiro. Tudo vem da “Terra das Peças e Filmes Prontos”, onde todas as obras estão, aguardando quem as resgate, afirma ele, com a maior convicção.

Para fazer Do fundo do lago escuro, escrito após ser dispensado da TV, cercou-se de fotos da infância e iniciou uma viagem por todos os detalhes ali impressos. A tarefa foi facilitada porque tinha ainda, por contrato, três meses de salário garantidos. Pôde assim mergulhar naquele universo e chegou ao ponto de ouvir vozes, tal o alheamento do mundo que o cercava. “Teatro e cinema são atividades irracionais, vêm do inconsciente”, afirma ele.

Atualmente, Domingos vem tentando se concentrar num trabalho só, para não haver dispersão. Seu próximo filme, Inseparáveis,, é uma continuação da história do casal de Separações. No teatro, pretende remontar Do fundo do Lago Escuro. A peça já teve outras montagens, mas nunca dirigidas por ele, que sempre teve dificuldade de encontrar atores que pudessem representar seus pais. Agora, está definido: Priscila Rosenbaum fará a mãe (já que hoje tem a idade dela, na peça) e ele, Domingos, fará a avó.


BLOG e TV
Espertamente, Domingos criou em seu blog duas partes: atualidades (onde fala do que acontece) e memória (onde fala do que já foi). Estas duas partes vão se encontrar, em algum momento e aí, diz ele, “terei o rascunho de minha autobiografia”. O blog traz também o que ele chama de “legado”: idéias que concebeu, mas, segundo ele, não terá tempo para desenvolver.

Falando de seu programa Swing (canal Brasil), que estreou em abril, lamenta que só casais que estão bem é que dão entrevista, mas, por outro lado, diz que “é bom ver o amor nos olhos deles”. O programa tem um formato especial: ele entrevista a mulher e Priscila Rosenbaum (sua mulher) entrevista o homem; depois eles trocam e, ao final, conversam os quatro. O formato final vai ao ar com 25 minutos de duração.

DEUS

Ateu, este engenheiro especializado em eletricidade teórica (único do Brasil), lamenta não acreditar que possa haver algo novo após a morte (“o que vier já estou no lucro”), mas fala em Deus várias vezes, inclusive ao citar Dostoievski, por quem é apaixonado: “Deus escreve pelas mãos dele”, diz. E evoca uma frase de Goethe: "Se eu não tivesse o mundo dentro de mim ficaria cego quando abrisse os olhos”. Finalmente, define: “Deus é uma ideia poética”.

Domingos Oliveira é assim: guarda dentro dele a sabedoria de seus 72 anos e toda a paixão e coragem que normalmente se atribui somente à juventude. Aliás, JUVENTUDE... isso já é uma outra postagem....

Sala Escura - JUVENTUDE

A juventude de homens já passados dos 70, se escapa à aparência, está lá, na sua capacidade de manter acesa a chama que faz a vida ser algo que palpita e estremece - ainda que de medo, insegurança e dor – e não uma paisagem estática. “Acordar com vontade de vida”, diz a certa altura um dos personagens.

São três amigos que se reúnem para mergulhar – sem amargura – em suas histórias, seu passado, retomando o espírito de uma montagem teatral da qual participaram, há 50 anos, ainda adolescentes: A ceia dos cardeais (do autor português Julio Dantas). No balanço de suas vidas, avaliam os amores vividos e sonhados, a busca dos ideais (“melhor é ter ideais, nem que seja para perdê-los e procurar outros”), refletem sobre a diferença entre desejo e vontade e compartilham as asperezas do presente. É ficção habilmente mesclada com realidade.

Com fino humor – o que não é novidade na obra de Domingos Oliveira -, os três homens-meninos se expõem até o osso, revelando sua fragilidade e sua grandeza. Realizado no esquema BOAA (Baixo Orçamento e Alto Astral), as limitações técnicas do longa são largamente compensadas pelas atuações sinceras – destaque para o diretor teatral Aderbal Freire-Filho em seu primeiro trabalho como ator – e alguns momentos de grande beleza estética. Diálogos e silêncios são adornados por poéticas imagens do céu, nuvens que passam, um emocionante nascer do sol.

Juventude faz bem à alma e devia ser “tomado” a intervalos regulares durante a travessia que todos nós desejamos fazer: da juventude de corpo à juventude do espírito.


JUVENTUDE, de Domingos Oliveira
Com: Domingos Oliveira, Paulo José e Aderbal Freire-Filho
Brasil, 2008 – 1h15 – 14 anos

sábado, 16 de maio de 2009

SALA ESCURA - UM ATO DE LIBERDADE

Boas intenções o filme tem, não se pode negar. E boas atuações também. Bonita fotografia, ainda que explore pouco as possibilidades que as locações oferecem. Mas ver logo de cara os personagens falando um inglês com sotaque polaco-russo... dá, no mínimo, um desconforto ao espectador, pra não dizer que é um balde de água fria. Ouve-se russo, sim, o que, de certa forma, só reforça ainda mais a estranheza.

Baseado num acontecimento verídico, a história dos irmãos Bielski é uma das muitas faces pouco exploradas em filmes de guerra, no caso, a 2ª Mundial. A história dos irmãos judeus poloneses Tuvia (Daniel Craig), Zus (Liev Schreiber) e Asael (Jamie Bell) é promissora. Atingidos pela perseguição nazista, se refugiam numa floresta da Bielo-Russia, onde as adversidades, a urgência de tomar atitudes, de arriscar ou recuar, irá colocá-los em lados opostos. Unir-se à resistência russa e pegar em armas ou tentar preservar a vida de dezenas de judeus que a eles se juntam? Mas o filme é pouco ambicioso; Zwick não vai ao pote com a sede que demonstrou em Diamantes de Sangue.


A luta pela vida, de homens e mulheres perseguidos, que enfrentam o rigoroso inverno do leste europeu, a fome, as desconfianças, os bombardeios, é comovente mas não chega a fazer o coraçao do espectador bater mais forte. Há, por vezes, uma certa impressão de que procurou-se rechear o filme com passagens que poderiam ser dispensadas, até porque a duração do longa é mesmo longa (137 minutos). Mais do que o espírito, a alma da história, parece ter havido excessiva preocupação em não deixar de fora detalhes, situações vividas no dia-a-dia dos fugitivos, como se fosse parte do dever de casa. Taí o idioma inglês, fora do lugar.

Mas esses pontos negativos não devem afugentar o espectador do cinema. O filme tem seus méritos, o principal deles, abordar episódios da História pouco explorados e falar de preconceito, intolerância, ambição, fidelidade, fé... enfim, humanidade.


Um Ato de Liberdade (Defiance)
Direção: Edward Zwick – EUA, 2008

quarta-feira, 13 de maio de 2009

FALTANDO UM PEDAÇO


Quando meu irmão mais velho foi embora deste nosso mundo, há 10 anos, escrevi um poema. A poeta(*) que mora em mim é assim: desperta quando a tristeza bate na minha vidraça, e mexe comigo à noite, na cama, e pega na minha mão quando ando pelas calçadas. É como o copo que transborda, quando uma gota a mais mergulha dentro dele.

Não sei nem porque me lembrei disso hoje, talvez porque haja tantas perdas, diariamente, na insanidade das cidades grandes. Ia digitar um título para esta postagem e me veio à cabeça a linda música de Djavan. Palavras e melodia precisas pra falar dessa falta que ocupa tanto espaço dentro de nós.
Os versos de Djavan você acha nesse link: http://letras.terra.com.br/djavan/45524/.

Meu poema eu divido com vocês aqui:

As coisas parecem estar iguais
Mas elas não estão mais iguais.
Mas os livros continuam na mesinha de cabeceira,
Os ruídos da rua são os mesmos
E os supermercados continuam cheios.

Tudo parece igual
A rotina de sempre
As pessoas dentro dos ônibus
Os carros
Os celulares tocando sem parar

Tudo é igual
Mas já não é como antes
Falta uma peça no quebra-cabeça,
Falta um ladrilho no mosaico,
Falta uma pétala na flor,
Falta uma estrela na noite.
Falta algo imperceptível.

Parece que tudo é igual
Mas já não é.

(*)http://www.sualingua.com.br/01/01_poetisa.htm