segunda-feira, 29 de setembro de 2008

PAULO FREIRE, A REVISTA VEJA E OS ABUTRES

A revista VEJA elegeu Paulo Freire como alvo na edição de 20 de agosto. O tema: Educação. Algo que certamente preocupa os senhores daquela revista, já que um povo seriamente educado relegaria as distorções e falsas verdades que eles publicam ao lugar que merecem: o desprezo.

Ana Maria Araújo Freire, ou Nita, é viúva do educador e rebateu a agressão com uma carta. Diz ela: “Quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas, camufladamente, age em nome do reacionarismo desta. Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) promove um ciclo de cinema onde a imprensa é a estrela (www.abi.org.br), nem sempre para iluminar. Uma série de filmes, alguns clássicos, revela uma face nada dignificante do exercício da profissão de jornalista. Semanas atrás foi exibido A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (Billy Wilder, 1951), com um Kirk Douglas esbanjando beleza e vigor. E talento. 

 É um filme soberbo, não apenas como obra cinematográfica – direção perfeita, atuações primorosas, bela fotografia, roteiro redondo -, mas pelo retrato que faz de uma sociedade que ignora escrúpulos quando há outros interesses em jogo. Kirk Douglas é um jornalista decadente e irresponsável, que tenta reassumir seu posto de grande repórter, movido pela ambição e pela vaidade. E não hesita em colocar em risco a vida de um homem simples para alcançar seu objetivo. É uma obra que deveria estar nas aulas de Comunicação, nas faculdades de jornalismo. Mas o filme vai além, já que toda uma rede de interesses se forma em torno da farsa montada pelo jornalista, seduzindo políticos e autoridades.


Lá se vai meio século do lançamento do filme de Billy Wilder e o que temos hoje é um panorama aterrador, do qual a ética foi banida, considerada empecilho àqueles que pretendem ascensão profissional ou financeira. Como diz Nita em sua indignada carta: “A matéria [...] conta, lamentavelmente, com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista”.

No encerramento do Seminário “Liberdade de Expressão: Base da Democracia”, realizado na Academia Brasileira de Letras, o presidente da casa, o escritor e jornalista Cícero Sandroni, dizia que “vivemos não a liberdade de imprensa, mas a liberdade de empresa”, destacando as ligações perigosas que unem atividade jornalística e verbas publicitárias, inclusive as do Governo (um artigo sobre este Seminário será postado aqui brevemente). Paulo Freire foi lembrado no encontro pelo professor universitário, jornalista e pesquisador científico José Marques de Melo (ECA/USP) que falou da “cultura do silêncio” diagnosticada por Freire, numa população que sofre de carência educacional e inibição cultural. O cenário ideal para veículos como a revista em questão.

Voltando ao filme exibido na ABI, podemos concluir que, enquanto os abutres se alimentam de matéria em decomposição, num ciclo necessário à natureza, este tipo de jornalismo, ao contrário, tenta apodrecer o que há de sadio, deformando, deturpando, distorcendo fatos.

A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (Ace in the Hole)
Direção: Billy Wilder - EUA, 1951

http://www.imdb.com/title/tt0043338/
https://www.youtube.com/watch?v=9m9C4kqUNzw

2 comentários:

Nuno Virgílio Neto disse...

Ainda bem que hoje em dia não estamos mais limitados a ler e ouvir o que a imprensa corporativa (e comprometida com o mercado e outros interesses nem sempre louváveis) tem a dizer sobre as coisas.

Ainda bem que temos blogs e diversas outras ferramentas de comunicação que possibilitam o surgimento de experiências independentes de jornalismo e dão às pessoas comuns a possibilidade de dizer o que elas também pensam sobre o mundo – e sobre o papel às vezes sujo a que a imprensa oficial se presta...

Tecelã disse...

pois é, Nuno. Por isso é que veículos como o Terceiro Setor em Ação, seu jornal, não pode parar. As dificuldades são muitas, mas o estímulo é ver que algumas sementes lançadas, ainda que poucas, germinam.

Obrigada e Grande abraço.